postais da ria (206)


para o meu amigo fernando nuno

0 ahcravo_ DSC_5553 zé de gaia bw

por que mares andaste fernando?
quantos navios?
quantas safras?
quantos comandantes?
quantos países?

quantas vezes mestre?
quanto aprendeste?
a quantos ensinaste?

pescador da torreira
é pescador de todos os mares
que da ria só embalo
não ganho que baste

no safar das redes
não safas a vida
alguém safará?

as histórias muitas
de teres sido e como tu tantos
enchem as horas da espera
de haver uma vaga
de chegar a idade da reforma
de partir ou ficar

na ria não se faz vida
pois não zé?

0 ahcravo_DSC_5553 zé de gaia c

(torreira; 2009)

solheira: alar e safar


0 ahcravo_ DSC_0523

a safar caranguejo, vejam-se as mãos comidas de sal

actualmente na torreira a pesca aos chocos e aos linguados faz-se utilizando a arte “solheira”, cuja estrutura se encontra legislada nos seguintes termos:

“descrição- rede de emalhar de três panos (tresmalho) fundeada

características:

– comprimento máximo da rede 500m
– altura máxima da rede – 60cm
– malhagem mínima do pano central – 100mm” (já reduzida para 80mm)

o nome da arte advém do facto de ter servido em tempos para a pesca da solha, peixe muito abundante na ria e que com o desaparecimento do moliço, se tornou espécie rara.

na torreira à totalidade da rede chama-se “andar” e às porções de que se compõe “rede”.

cada “rede”, ou “ração”, ou “caçada”, custa 67 euros, sendo necessária para construir um “andar”, pelo menos 16 redes, ou seja, um “andar” custa 1.072 euros.

para trabalhar é necessária uma bateira, com a seguinte estrutura:

– 12 cavernas
– 7,5 m de comprimento
– 1,80m de boca
– 45cm de pontal

a bateira custa cerca de 3.000 euros e é accionada por um motor de 8 cv, no valor de cerca de 2.500 euros.

ao conjunto de apetrechos com que uma bateira deve ser dotada para passar na vistoria, chama-se “parlamenta” e custa cerca de 500 euros.

anualmente é necessário proceder a uma vistoria, que custa cerca de 80 euros, para efeitos de renovação de licença, a qual só é renovada se o pescador tiver declarado o mínimo de 5.000 euros de pescado na lota.

ou seja, e para concluir, somando as parcelas, os custos fixos para o exercício da arte, orçam em 7.150 euros .”

durante o ano de 2010 fui várias vezes ao rio largar e alar redes com pescadores da torreira, de alguma idas ficaram registos fotográficos, doutras vídeos. não houve um pescador a quem tenha pedido para ir com ele, que me desse uma nega, por isso é a todos os pescadores da torreira que dedico estes registos.

os momentos mais dolorosos e custosos são o alar e o safar das redes, é desses momentos que tratam os vídeos que aqui mostro.

as redes são largadas no fim da enchente e aladas, em princípio, no início da vazante. a bateira fica “atravessada” e, para não ser arrastada pela maré, é lançado à ria, do lado de “cima”, um peso ao qual fica amarrada.

o esforço da alagem é notório nos registos.

em média as redes ficam cerca de uma hora na ria. podem ficar mais, depende do pescador, do local onde largar, se há muitas algas na ria ou o sítio é rico em peixe (por costume) mas também em caranguejo.

por vezes uma hora na água, dá várias a safar. se for caranguejo então são as ferradelas, os rasganços nas redes e trabalho dobrado.

não é invulgar uma hora na ria, uma tarde a safar

(nota : procurei nalguns destes registos não fazer corte de tempos que “parecem” mortos. fica à responsabilidade de quem o vir, segundo a sua sensibilidade e ligação à ria, fazer os cortes que achar por bem – acelerando, por exemplo, durante alguns momentos a passagem do vídeo e voltando ao normal quando o entender.

que corte quem vê e não quem faz é o meu critério neste tipo de registos.)

(torreira; 2010)

postais da ria (157)


a magia da ria

0 ahcravo_DSC_9254 bw
há imagens que nos pregam
ao chão
que nos prendem os olhos

as cores as gentes o céu
o estar ali
deslumbrado com tanto

a ria por vezes é pura magia
como senti no momento em que
não fui capaz de para de disparar
enquanto que pensava

por mais que faça
nunca nada será mais belo
que o estar aqui

assim sintas a ria um dia

0 ahcravo_DSC_9254

o henrique e o padas safam as redes da solheira, o léo, na bateira do pai assiste

(torreira; o safar das redes)

postais da ria (139)


pão parco

0 ahcravo_DSC_8709_zé pedro safar bw

safar as redes da solheira para a plataforma

no longe quem sabe
o futuro
um barco meses no alto

um salário nos dedos
rasgados pelo gelo
redes cordas espinhas

sonhar amanhã
um destino diverso  deste

estagnado na beleza inútil
de onde um pão parco

0 ahcravo_DSC_8709_zé pedro safar

fosse o peixe limo e boa a pescaria

(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)