não sei
como
fugir
deste ser
aqui
agora
as palavras
por dentro
do dia
o dia
por dentro
das palavras
entrançados
amor
desejo
metáforas
carícias
veniais coisas
vãs
exercício
sempre
ao lado
não sei
como
não dizer
aqui
agora
BASTA
o peso
é
insuportável
sem
o grito
à vara ou à vela, são dois dos modos de impulsão mais vulgares do moliceiro
unem-se os homens
dão-se as mãos
fazem-se nós
limpa-se a sombra
renasce-se
o moliceiro
é bandeira
amor paixão
modo de vida foi
de memórias pleno
mais que eles
é todos os que antes o foram
uniram-se os homens
cuidem-se os que
o vento
o norte pai dos dias quentes
da costa ocidental
nesse dia
não se fez sentir
lentos os barcos
sulcaram a ria
sem pressas de tempo
como se dele não soubessem
horas muitas
quase noite
quando a aveiro chegaram
mal sabiam então
que no ano seguinte
seria noite
logo pela manhã
e a regata
a regata
seria negra
que este é um país
onde se enterram os vivos
por ser mais fácil
cuidar dos mortos
chamam-lhe alguns
cultura
(regata da ria; 2011)
em 2012 a regata seria cancelada “por falta de verbas”
talvez de palavras se faça
o discurso
mas com actos se concretiza
assim se faz o homem
tragam-me um
diz-me que terra é esta
onde já poucos morrem
porque menos nascem?
terra de partida
terra em que não há pobres
dizem
porque misérias muitas
os moliceiros esguios elegantes fermosos
os mais belos barcos do mundo
não eram barcos
eram casa
ave
pão na mesa
que povo é este que tem
de buscar as suas memórias
em arquivos de museus que não os seus
que povo é este que tão fraca gente
à frente tem
vou ainda ao meu encontro
no desencontro de estar aqui
(torreira e dois moliceiros que já não existem – nem o dono)
o artista traça meticulosamente
as linhas que nos trazem o rosto
a memória das palavras
simples
das mensagens
complexas
dir-te-ei um livro
vogando sobre águas mansas
levando cultura na proa
pandas as velas
cheias de poemas
o moliceiro
é pessoa
(o pintor josé manuel oliveira a pintar um dos painéis da proa do moliceiro “pardilhoense”)