crónicas da xávega (136)


pelo pão de cada dia

SONY DSC

o mestre de redes e o saco

no chão estendido
um véu rendado
é manto que cobre

homem e mar unidos
na malha dos dias
onde sol sal areia e suor

se fundem num só corpo
por debaixo das nuvens
nos caminhos percorridos

pelo pão de cada dia

SONY DSC

como se um véu de noiva o saco nas mãos do cebola

(torreira; companha do marco; 2010)

as maõs e os olhos do mestre das redes, o cebola,  percorrem o saco em busca de rombos

crónicas da xávega (135)


quisera-me lá

0 ahcrav_DSC_6070 bw

o arribar do calão do reçoeiro

haver ainda mar
por onde olhos
se perdem

se esvai
a raiva imensa
de saber que homens
lobos de homens

sou areia onde espuma
chega-me o sal aos olhos
navego para longe

quisera-me lá

0 ahcravo_DSC_6070

o delmar à direita e o ti augusto de boné ao fundo à esquerda

(torreira; companha do marco; 2013)

os moliceiros têm vela (186)


na vela o vento

0 ahcravo_DSC_6153 bw

com duas velas

ser ainda árvore
depois da tempestade

deixar que o vento siga
a sua eterna viagem

fundas as raízes na terra
escrevem o teu nome

sorris sem saber como
nem para quem

mais forte o sorriso
que o vento

na vela

0 ahcravo_DSC_6153

que beleza é esta?

(torreira; regata da ria; 2011)

postais da ria (135)


a capa

0 ahcravo_DSC_6901 domingos guerra e salvador bw

o salvador e o falecido pai, ti domingos, cirandam berbigão

não lhes conheces
o rosto o nome
o quanto

à mesa saboreias
o que deles

olhas os registos
estudas contrastes
enquadramentos

outro repasto
para outro prazer

regressarás quando
só porque viste
saboreaste sentiste

mas não lhes sabes
o nome o rosto
a vida

não contas a estória
lês do livro a capa

0 ahcravo_DSC_6901 domingos guerra e salvador

as cores da ria não dizem tudo das suas gentes

(torreira; cirandar)