ser só ser


os rios das cores
no lento saborear
deste estar aqui
longe e perto de
ser só ser só

trazer na língua o sal
roubado algures

ter tudo sem nada
querer possuir
e ser feliz
por ser assim

olhar tudo e tudo ser
na alegria plena
de estar vivo e ver

as cores bailam-me
diante dos olhos
são rios que nascem
sem ânsias de foz

sorrio
por entre as nuvens
dos dias
inúteis
no lento saborear
deste aqui estar

(torreira; 2011)

longe de mim


trago no corpo
o sal do verão
bailes de mar
nos olhos

estou vivo
outono dentro de outono
continuo ainda
a ser corpo

virá a chuva
os dias mais curtos
o céu mais carregado
a angústia serena
agora

virá também o oiro
semeado nas vinhas
que não verei
porque longe do mar

tudo
o que é longe do mar
é longe de mim

até estas palavras
o são cada vez mais

(torreira; sol outonal)

o necas


(torreira; 2010)

responde pelo nome de necas, é o cão do alberto trabalhito (trovão).

cão de pesca, cão de pescador, acompanha o dono em todas as suas saídas para ganhar na ria o pão, nem sempre o melhor.

é um animal compenetrado nas suas funções e segue com atenção, quase como se fiscalizando e controlando, todas as acções dos donos.

neste registo íamos largar redes solheiras.

as rosas do orelhas


 
o amor dos pescadores da torreira às suas bateiras vai ao ponto de as decorar com os adereços mais belos, sejam eles religiosos (nas pinturas decorativas), seja nas cores com que as pintam, seja ainda no ponto mais alto e emblemático da bateira: a bica da proa.

 

o henrique “orelhas” – terá apelido de família certamente, mas é pela alcunha que toda a gente o conhece – prepara o ramo de rosas que irá colocar aos pés da senhora de fátima que encima a bica.

é esta a gente que nos faz sentir gente também e lastimar aqueles que “lá do seu império” os não acarinham e compreendem.

fica neste registo a minha singela homenagem a todos os pescadores da torreira que me recebem no seu meio como amigo e “da casa”.

(ria de aveiro; torreira; marina dos pescadores)

(torreira; marina dos pescadores; 2010)

quando o mar trabalha na torreira_henrique da bóia


(henrique da bóia; torreira; anos 90)

há quanto tempo não sonho

afinal o mar não é de vinho
e o ti borras nunca foi à américa

ficámos onde nascemos

lembro-me de
criança ainda
ajudar a minha mãe na escolha do peixe
ver no meu pai
o eu de amanhã

as dunas
eram então o meu esconderijo
agachado no seu ventre espreitava
o futuro

era o mar
que me chamava

efémero


espuma do tempo
isto somos
tudo e nada
o momento o diz

onde fomos
ainda seremos?
onde somos
seremos o que fomos?

quando não formos
quem será
o que fomos?

sento-me
em frente ao mar
não penso
sento-me
apenas

isso sou
hoje
aqui
onde estou

um homem sentado
a olhar o mar

(torreira; 2010)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quando o mar trabalha na torreira_flávia


sou
a que nunca ficou em casa
nunca foi ao mar

sou
a que ajuda a empurrar o barco
a que o espera em terra

sou
a que escolhe o peixe
e entre duas picadas de peixe aranha
se levanta
e nasce na areia um outro rio

sou
a mãe
a mulher
a filha
a viúva

sou
a mulher da arte
que a arte não lembra

(torreira; anos 90)