postais da ria (432)


foi-se o tempo de ganhar o pão
de voar por sobre as águas
ser mais um da família
o  mais novo o mais velho
o camarada silencioso

cortes precisos exigidos
pelas autoridades vigilantes
o assassinato assistido

as bateiras
morrem retalhadas
sem lágrimas de árvore

(abate de uma bateira; torreira; 2012)

crónicas da xávega (503)


caminho por aí
face aberta ao vento
olhos abertos ao mundo
coração em forma de gente

ásperos são os caminhos
a limpidez de que falava
sophia
é porto de abrigo
para fugir deste cozido
à portuguesa
onde abunda a carne de porco
o arroto
e o cheiro a vinho pútrido

tirem-me daqui
alguém disse
mas ninguém nos pode tirar
de nós

(o arribar da mão de barca: torreira; 2009)