crónicas da xávega (614)


escolho escolher

escolho o que como
o que bebo sei o que posso
onde vou e quando

eu na minha inteireza sou
rocha antiga firme
em convicções e causas

não conheço quem
possa escolher um povo
que não o escolha

é pescadinha de rabo
na boca e isso
só com arroz de tomate

(xávega; zorra carregada com barco em fundo; torreira; 2013)

crónicas da xávega (613)


cavar fundo
revolver a terra

cavar mais fundo
abrir pedras

na raiz da palavra
o coração do poeta

saboreio o fruto
digo o poema

(xávega; rede seca carregada a preceito; o voo do saco; torreira; 2013)

nota: depois de ter secado, estendida no areal, a rede é colocada sobre a zorra – estrado de tábuas pregadas sobre toros, com uma corda para poder ser traccionada – com a seguinte sequência : mão de barca; saco; reçoeiro (terminologia da torreira)

a fala dos retratos (171)


” … quando puder venha nos visitar, alguns de nós sentimos a sua falta … já fazia parte da nossa história … da torreira, era e é um de nós.”

(joão manuel brandão)

(torreira; 2012)

(nota: foto publicada com autorização do retratado. o registo foi feito a bordo da bateira, no final de uma sessão de mariscar com o uso de cabrita alta)

crónicas da xávega (612)


a palavra escrita digo
devagar soletro
a emoção com os dedos

cego caminho pelas letras
repito-me repetes-me
eu sou as minhas palavras

pensava que o sabias
que me ouvias e era gravura
antiga em rocha dura
o que te dizia

sabes não há verdades
eternas nem mentiras que muito
durem o sol hoje é lá fora

não o será sempre
que outras estações virão

(xávega; aparelhar; torreira; 2013)

os moliceiros têm vela (575)


hoje é dia de s. paio

os cisnes da ria poisam e voam
sobre a lisura das águas

livres de gabinetes e cálculos
de enganos elaborados
por mandantes e candidatos

é hora de vender gato por lebre
é tempo há muito tempo
de semear ilusões e colher pelouros

os moliceiros são o colorido da ria
onde negros corvos
fazem falsas promessas colhem votos
cargos futuros euros

os cisnes da ria livres e belos
nunca serão património nacional
sequer da humanidade nunca

os cisnes da ria são moliceiros inteiros
homens e barcos fundidos
na herança na tradição e no sonho

os cisnes da ria poisam e voam
sobre a lisura das águas
ignoram o cinismo são emblema

(regata de moliceiros; s. paio; torreira; 2017)