lembro-me
das mãos da aurora
das irmãs das canastras
da alcunha herdada
lembro-me
e guardo na memória as vozes
o grito
sardinha linda
do nosso mári
aceso o fogareiro
pingavam no pão
a memória só
só
(sardinha linda; xávega; torreira; 2008)
este é o meu tempo
o meu mundo é aqui
se quero ser é aqui e agora
recuso-me a ficar sentado
à soleira da porta a falar
com as árvores e as flores
ou contigo amor que invento
costas viradas ao coração da casa
não ouvindo não vendo
a desumanidade dentro dela
é aqui e agora
com as parcas armas que tenho
palavras palavras tão pobres
mas que mordem ferem cortam
denunciam
é aqui e agora
ou amanhã não sei onde
terei vergonha de não ter sido
por isso escrevo
porque a realidade ultrapassa
é o genocídio em gaza
(xávega; dar o porfio; torreira; 2011)