povo que lavas no rio


 

o meu povo

 

na água fria
os dedos mergulham
gretados dedos
mãos brancas
mais que a roupa
que lavam

o tempo foi
o tempo voltou
o meu povo
volta a lavar no rio
de lágrimas feito

(a electricidade sobe 3,8%
mexia mexe-se na cadeira
pensa no prémio, satisfeito)

na pedra a roupa
o sabão por sobre ela
arranha, e não rasga
limpa as nódoas de um dia
a dia cada vez
mais negro

o meu povo
tem os dedos gretados
e vê passar os carros
com os olhos que nas costas
lhe inventaram

as mãos e os peixes, pão são


as mãos e os peixes

 

de joelhos na areia
curvados sobre o pão
do mar
as mãos
sempre as mãos
separam, apartam, cuidam de
se não picar na lacraia
peixe-aranha
cuidam
mas não param
ágeis, frágeis, rudes
mãos de peixe
mãos de pão

mãos de homens de mulheres
de joelhos no chão

(praia de mira, companha do zé monteiro)

o nó


 

 

o nó

 

por vezes, durante o alar das redes as cordas  formam nós – estranhas mãos que mar no moram.

é preciso que o nó seja desfeito antes de chegar ao alador, que poderá encravar e fazer parar toda a alagem.

os movimentos são rápidos, seguros, fortes, sentidos.

 

de um simples nó, pode resultar a perda de um lance.

 

o novíssimo testamento


 

mário lúcio

 



ontem, dia 9 de outubro, foi entregue na biblioteca municipal de cantanhede, o 1º prémio, da 2ª edição do concurso carlos de oliveira, ao romance ” o novíssimo testamento”. o autor, mário lúcio sousa, escritor, músico (fundador do grupo simentera, de que é líder, vocalista e multi-instrumentista) é também embaixador cultural de cabo verde.do romance, que se aconselha vivamente, retiro, do primeiro capítulo, somente o início do diálogo:“_ É chegada a minha hora,
_Valha-nos Deus, chamem o médico, chamem o médico,
_Não chamam nada, na minha morte mando eu,
_Não quero médico, chamem-me um fotógrafo,
_Estás doida, Vó?
_Estou a morrer, não estou?, então cumpra-se ,a minha vontade, quero um fotógrafo, pois o médico adia a morte e o fotógrafo perpetua a vida,……….

o fotógrafo estava lá, por isso, mário, aqui fica o meu modesto contributo para a perpetuação da tua vida

mantenha

 

manuel castelhano. presente!


 

manel castelhano

ser pescador aqui
é viver da fome do mar
é chamar turista

a estrada larga alcatroada
não mereceu nome de ninguém
ficou só “ circunvalação“

assim se destrói a memória
da xávega
com alcatrão

vendem-nos
a imagem no postal
para nos matarem
no local

( o manel já navega noutros mares, aqui continua a ir ao mar.

falo da torreira)