Mês: Outubro 2010
povo que lavas no rio
na água fria
os dedos mergulham
gretados dedos
mãos brancas
mais que a roupa
que lavam
o tempo foi
o tempo voltou
o meu povo
volta a lavar no rio
de lágrimas feito
(a electricidade sobe 3,8%
mexia mexe-se na cadeira
pensa no prémio, satisfeito)
na pedra a roupa
o sabão por sobre ela
arranha, e não rasga
limpa as nódoas de um dia
a dia cada vez
mais negro
o meu povo
tem os dedos gretados
e vê passar os carros
com os olhos que nas costas
lhe inventaram
alberto pimenta_fastos(II)
as quatro estações (I)
as mãos e os peixes, pão são
de joelhos na areia
curvados sobre o pão
do mar
as mãos
sempre as mãos
separam, apartam, cuidam de
se não picar na lacraia
peixe-aranha
cuidam
mas não param
ágeis, frágeis, rudes
mãos de peixe
mãos de pão
mãos de homens de mulheres
de joelhos no chão
(praia de mira, companha do zé monteiro)
alberto pimenta – fastos (I)
o nó
por vezes, durante o alar das redes as cordas formam nós – estranhas mãos que mar no moram.
é preciso que o nó seja desfeito antes de chegar ao alador, que poderá encravar e fazer parar toda a alagem.
os movimentos são rápidos, seguros, fortes, sentidos.
de um simples nó, pode resultar a perda de um lance.
o novíssimo testamento
ontem, dia 9 de outubro, foi entregue na biblioteca municipal de cantanhede, o 1º prémio, da 2ª edição do concurso carlos de oliveira, ao romance ” o novíssimo testamento”. o autor, mário lúcio sousa, escritor, músico (fundador do grupo simentera, de que é líder, vocalista e multi-instrumentista) é também embaixador cultural de cabo verde.do romance, que se aconselha vivamente, retiro, do primeiro capítulo, somente o início do diálogo:“_ É chegada a minha hora,
_Valha-nos Deus, chamem o médico, chamem o médico,
_Não chamam nada, na minha morte mando eu,
_Não quero médico, chamem-me um fotógrafo,
_Estás doida, Vó?
_Estou a morrer, não estou?, então cumpra-se ,a minha vontade, quero um fotógrafo, pois o médico adia a morte e o fotógrafo perpetua a vida,……….
“
o fotógrafo estava lá, por isso, mário, aqui fica o meu modesto contributo para a perpetuação da tua vida
mantenha
ode ao sonho
manuel castelhano. presente!
ser pescador aqui
é viver da fome do mar
é chamar turista
a estrada larga alcatroada
não mereceu nome de ninguém
ficou só “ circunvalação“
assim se destrói a memória
da xávega
com alcatrão
vendem-nos
a imagem no postal
para nos matarem
no local
( o manel já navega noutros mares, aqui continua a ir ao mar.
falo da torreira)





