da memória


cores

 

um silêncio azul povoado de bruma e mãos

os rios inventam o leito

e morrem ao longo das margens

 

não há destino avesso a naus e marinheiros

 

o mar soa por entre os pinheiros

num marulhar de caruma

 

um sabor a sg ventil nos lábios

 

sabes

o desejo nunca cabe num só corpo

e depois

para tanto ser uma pequena tenda basta

até breve nicole


nicole

 

até breve nicole

findos os lanços
a praia ficava para trás
o mar mais longe

caminhavas para terra
para a ti rosa
onde os amigos que já não
te esperavam:

o ti miguel bitaolra
o teu amigo maior
todos
todos na ti rosa
eram teus amigos

todos
todos na ti rosa
são teus amigos

todos
todos na ti rosa
sabem de cor o teu nome
porque o têm gravado no coração
coração de pescadores
onde os peixes por vezes
têm nome de gente

foste e serás sempre
um deles

(torreira; companha do marco; 2010)

piano


 

estou assim  

piano

moltissimo  

 

estou assim

piano não sei de chão

dessa coisa chamada terra

onde os pés o corpo

poisam

assim mesmo como se

talvez quem sabe tu?

não sei se porque

não te sei também  

 

aqui sou tudo

sou tudo

e não sou ninguém  

 

o piano

leva-me nos braços das notas

ao encontro da noite longuíssima

onde outrora a ternura

tingia de cores garridas

os lençóis  

 

loucos

foram os tempos

e eu

como vais nicole?


nicole

 

eusei

que vou deixar de ser
um dia

e tu nicole?
continuas a olhar para mim
com um barco pelo meio
mais que um barco
uma barreira de língua
que sabias tu de português?
pouco
que sabia eu de ucraniano?
nada

que sabiamos um do outro?
tanto!

família longe, dizias,
pescadores: família aqui
amigos muitos aqui
nicole

onde quer que estejas
mesmo que não estejas
continuas a estar
AQUI