também o sol


o que queiras ver

construo meticulosamente

o silêncio

 

formiga dos dias

carreio palavras

curvados os ombros de ser

peso

do senti-las assim

tão minhas, tão eu

 

navego em sensações

procuro não naufragar

de tanto

agarro-me a mim

sou-me cada vez mais

 

não me perguntes se

o sol se põe

se nasce

ou se é apenas a lua

é

fui eu que o fiz assim

 

na construção

do silêncio

as palavras

volvem-se em sons

ininteligíveis

 

também o sol

 

(buarcos)

ser, só ser


os rios das cores

 

no lento saborear

deste estar aqui

longe e perto de

ser, só ser, só

trazer na língua o sal

roubado algures

 

ter tudo sem nada

querer possuir

e ser feliz

por ser assim

olhar tudo e tudo ser

na alegria plena

de estar vivo e ver

 

as cores bailam-me

diante dos olhos

e são rios que nascem

sem ânsias de foz

 

sorrio

por entre as nuvens

dos dias

inúteis

no lento saborear

deste estar aqui

xávega_entre os bois e os tractores


força humana
 
este registo é a memória de um tempo de transição, na xávega da torreira, em que as juntas de bois já não eram utilizadas e os tractores ainda não tinham sido introduzidos.
 
foi um tempo curto, mas em que se trabalhou à moda do início da arte, todo o esforço era humano, à excepção do motor que já se encontrava instalado no barco.
 
(torreira; século XX)
 

quando o mar trabalha na torreira


humana a força toda - que os bois já acabaram e os tractores ainda não

 

à força de braços e arte
deslizando sobre varas
caminhada lenta pausada
o barco chega ao mar

assim o início

provocadoras
ondas chamam
amor seu
vida nossa

homens sobem
inundam o barco de força
aos remos
serão poucos
bastantes porém

lanço
que começa
esperança
no que o mar
para dar tem

 

(torreira; século XX)