o tempo parou


sem moldura

o tempo parou

no umbral da porta
só a luz passou
coada, finíssima
tudo cobre
com a patine do tempo
em que o tempo
parou

tempos houve
em que fogo
gente, sopa
mesa, vinho
pão, calor

tempos
parcos de haver
fartos de partir

foram-se
levando com eles
a memória
e o tornar

parou o tempo
no exacto momento
em que a porta
passaram
prometendo
a si mesmos
que um dia
quem sabe
outra casa
farta e nova
ali fariam

não voltaram
para onde foram
aí ficaram
e o tempo

o tempo parou

(macieira; serra da gralheira; s.pedro do sul)

xávega – o recolher do peixe


o peixe, o pescador e a promessa

o retirar o peixe do saco com recurso a “xalavares” é o pirmeiro passo dos últimos de um lanço.

a ele segue-se a escolha, a lavagem e o enchimento das caixas, que serão negociadas com o intermediário e/ou levadas à lota.

enganam-se aquele que pensam que o pescador ganha bem porque o peixe é caro. entre a venda ao intermediário e a venda ao público o preço pode ser multiplicado por mais de 10 vezes.

enquanto os pescadores não se organizarem e forem eles próprios a fazer a venda directa na lota, com exclusão de intermediários, ganham muito os que fazem pouco e ganham pouco os que trabalham muito.

mas isto não passa de um sonho, no que se refere à pesca artesanal. nunca houve organização e não é agora, quando são tão poucos, que vai haver. a subsistência da xávega, não é um milagre, mas é um mistério alimentado com muito suor e reformados.

(torreira; companha do murta; 2006)