mãos de peixe


mãos de peixe

mãos de peixe

 

é de cavala o lanço

farto e fraco

pesado na rede

parco no rendimento

 

os olhos dizem onde

as mãos vão como

 

aparta-se algum carapau

peixe de escolha

(assim dizem do robalo do linguado)

pela ponta da cauda

as lacraias

(peixe aranha)

um apertar do dedo se picado

pausa para conter a dor

 

o saber destas mãos

que sem qualquer protecção

são peixes no mar deles

 

mãos limpas

por mais que

mãos de peixe

mãos de mar

 

mãos

 

(torreira; companha do marco; 2010)

do ficcionado (des)equilíbrio


o meu amigos salvador belo, cuja posição me inspirou

o meu amigo salvador belo, cuja posição me inspirou

 

 

a tua casa
a tua vida
o teu lugar onde
és o que
o teu contexto
de sobrevivência

 

quanto custa seres
aqui?
o que és se aqui
não for?

 

sobreviver
não é subservir

 

o homem
é ele e a sua palavra
onde quer que
desconhece outra geografia
que não a do que pensa

 

a verdade não é localizável
no mapa dos interesses locais
é
mesmo que a sonegues
ou
propositadamente a ignores

 

partiu-se um vidro na janela
era o teu nome

 

 

 

xávega, o largar da muleta


barco de mar maria de fátima

barco de mar maria de fátima

ao largar de forma tradicional, já o escrevi, o barco de mar tem três pontos de fixe em terra:

– a corda do reçoeiro

– a regeira (uma corda curta)

– a muleta

os três permitem que o barco se mantenha perpendicular à praia e às ondas, firme e com a bica da proa pronta a furar o mar. o perigo está no barco “dar de querena”, ou seja ficar de paralelo às ondas, o que fará com que vire com facilidade.

a muleta tradicional em madeira, apoia-se numa peça de metal existente na proa e é largada pelo arrais quando sente que o barco já não corre risco por estar “bem apontado ao mar”.

é o momento que aqui se regista, pode-se ver a flutuar a muleta, na zona inferior direita, que é puxada para terra por uma corda a que está presa.

(torreira; companha do marco; 2010)

safar o saco, safar a xávega


agostinho tabalhito (canhoto) e o arrais marco silva

agostinho tabalhito (canhoto) e o arrais marco silva

porque fotos como esta podem suscitar algumas dúvidas, que fique bem claro que “as malhagens da xávega são as constantes do diploma que a regulamenta”, por isso o tamanho do pescado não é resultado de qualquer ilegalidade.

porque se aproxima nova safra é importante meditar e repetir o já escrito sobre as capturas de “infantis” feitas pelas xávegas.

as redes deste tipo ao serem traccionadas, as mangas, formam aquilo a que os pescadores chamam “muro” fazendo com que o peixe apanhado na seu interior não saia e seja encaminhado para o saco, cuja malha tem as dimensões legais.

mesmo se se considerar que há peixe de pequenas dimensões, convém que se diga que “pequeno” é adjectivo e não substantivo e isto é muito importante.

pequeno para quem? pequeno para quê?

em primeiro lugar, do ponto de vista dos regulamentos europeus só há quotas para cavala, sardinha e carapau. é normal os espanhóis esgotarem a quota da cavala antes de ser época da xávega; a quota e as capturas de sardinha são absorvidas pelas traineiras; a quota do carapau raramente é atingida.

se pensarmos nas capturas dos chamados “infantis” pelas xávegas da nossa costa, elas só parecem ser em quantidade porque são visíveis nas praias. ninguém vê as capturas feitas pelos arrastos costeiros por motoras e outros barcos, não falando nas capturas do arrasto do alto. face a estes dois últimos as capturas da xávega são irrelevantes.

os que dizem que as capturas de “infantis” feitas pelas xávegas põem em causa a sustentabilidade do carapau e da sardinha nas nossas águas, deviam ter em conta a realidade global e não apenas “o que a vista alcança”. se não se atinge a quota de carapau definida pela união europeia, porque é que a captura  de “jaquinzinhos” é crime?

admitindo ainda que possa vir nas redes de dimensões legais, peixe de dimensões inferiores ao determinado pelas directivas, porque é que o carapau no mediterrâneo e nos açores pode ter tamanho inferior ao do atlântico – costa ocidental portuguesa?

se depois de chegar a terra todo o peixe apanhado acaba por morrer: areia nas guelras, feridas nas malhas… etc…. porque é que obrigam os pescadores a deitar ao mar peixe morto? fizessem-no eles e  muitas praias ficariam com água completamente poluída.

porque não deixam que seja aplicada a tradição, como foi proposto pela associação portuguesa de xávega e aprovado por todos os deputados, e que se o primeiro lanço dia der muito “jaquinzinho”, só deverá ser feito novo lanço à tarde e que se as capturas forem da mesma natureza não se farão mais lanços nesse dia. sempre foi assim. o produto dos lanços seria vendido e não deitado ao mar, o que não faz qualquer sentido.

porque querem matar a xávega?

qual o peso das capturas das xávegas face ao dos arrastões? justifica a perseguição a que estão sujeitos os pescadores desta arte que corre risco de extinção.

é tão bom ter um gabinete em bruxelas e tão duro ir ao mar.

 

(torreira; companha do marco; 2010)

xávega, fotógrafo sofre


 

quando o mar abraçou rui neto e a junta

quando o mar abraçou rui neto e a junta

nada como o espectáculo da recriação da xávega para que se juntem máquinas fotográficas, as mais variadas, com gentes vindas de terras em redor e de outras, que seriam difíceis de imaginar, como os verdadeiros militantes da fotografia e preservadores de memórias, dispostos a percorrer muitos quilómetros para enriquecerem o seu património.

no meio de tudo isto é sempre interessante guardar no arquivo uma foto do tipo ” eu estive lá”. pede-se a um amigo de vício, encena-se e espera-se pela congelação do momento.

nunca se deve virar as costas ao mar, todos o sabemos, mas no meio do entusiasmo e da alegria tudo se esquece. o rui neto, pediu a um amigo que fizesse o registo, o que aconteceu a seguir aqui fica para memória futura.

o rui recebeu pelo menos duas fotos, a que o amigo lhe tirou e a que eu tirei ao momento.

fotógrafo, por vezes, sofre.

 

(espinho; recriação da xávega; 2012)

 

é urgente


torreira, porto de abrigo

torreira, porto de abrigo

 

inventar um país

para este povo

o que ergue a bandeira

mesmo se longe

o que deu o sangue

mesmo se errado

o que se deu todo

e se sente enganado

 

inventar um país

não é

destruir um povo

 

inventar um país

é ter de

se necessário

recomeçar de novo

 

é urgente

 

(torreira; porto de abrigo)