crónicas da xávega, torreira (12)


 

o barco de mar maria de fátima, do arrais marco silva

o barco de mar maria de fátima, do arrais marco silva

dos homens

 

não basta crescer no tempo

ser maior no tamanho

contar mais dias

 

o homem

ou cresce por dentro

ou é a desilusão de o não ser

 

que coisa é o homem?”

perguntava drummond

apetece dizer de alguns

nada mais que coisa

nada mais e muito já é

 

estendo os olhos pela areia

sigo rastos efémeros

e pergunto

 

porquê?

 

(deitado na areia, o maria de fátima ouve-me cúmplice e leva-me para longe de tudo isto. estou no meio de um mar, onde só ele sabe levar-me. sonho sem vontade de acordar)

postais da ria (15)


 

a invenção da memória no cais do bico

a invenção da memória no cais do bico

 

ti zé rebeço

 

chama-se josé rendeiro, mas todos o conhecem por “zé rebeço”. nunca anda descalço, mas com os sapatos que a mãe lhe deu quando nasceu.

ontem, enchi-me de coragem e perguntei-lhe:

-ti zé, quantos anos tem?
-oh cravo, quase três quarteirões

filho de moliceiro e pequenos agricultures, foi criado no meio do moliço e nos moliceiros.

dunate 20 anos ganhou a vida no canadá, onde regressa todos os anos para consoar com filhos e netos.

mais que homem da ria, é um homem com uma dimensão humana rara de encontrar: um homem bom.

decano dos moliceiros da ria de aveiro, não perde uma única oportunidade para viver a ria; em 2009 encontrei-o no cais do bico a fazer uma descarga à moda antiga, de uma barcada de “cabelo de cão” – alga que tinha então aparecido na ria. quis reviver o tempo do moliço como adubo natural e fê-lo com o que a ria dava.

não falta a uma regata de moliceiros e de bateiras à vela.

– três quarteirões se chegar ao fim do ano, cravo!

o ti zé rebeço é um tesouro da ria, nasceu rente a tudo, cresceu à custa de muito trabalho e sacrifício, é um dos homens, poucos, com quem merece a pena usar um dia.

 

(ria de aveiro; murtosa; cais do bico)