olho a ria e penso a urbe


 

a bateira do marco abraçado por um velho moliceiro

a bateira do marco (fátima m.) abraçada por um velho moliceiro

 
gastam o tempo em estarem vivos
sem fazerem coisa outra
que isso mesmo

começam o dia quando

sentam-se nos cafés
lêm os jornais com a bica
as necrologias em destaque
depois da tensão
ou o inverso
que importa

falam do porquê de estar assim
aqui tudo onde eles também
e pelo falar se ficam que mais
já tempo foi de
agora outros que

perseguem a vida pelo puro prazer de
nada para além dela
que dela pensam saber o que fazer
nada

têm por projecto o estarem vivos
isso lhes basta
que coisa dura esta de estar por aqui

vivos ainda
(torreira)

 

o aparelhar das redes: as mãos


 

 

aparelham-se as redes

aparelham-se as redes

as mãos falam com os olhos
dizem-se o como
por onde
caminhos de artes ancestrais
refeitos

as redes sofridas de tanto mar
descansam o serem assim
nestas carícias breves

não há mãos rudes
nem caminhos de pedras

há homens
artes e mar

o tempo calou-se para
ouvir o norte

colori tudo para que saibas
a xávega
é oiro que nas tuas mãos
os olhos entregam

leva-a

 

(torreira; companha do marco; 2011)