os moliceiros têm vela (16)


da fotografia

a dança dos cisnes

a dança dos cisnes

onde andam agora os que
da terra a memória serão
de tantos olhares gravados

máquinas muitas prontas
a registar a festa da ria
o bailado dos moliceiros
voando como nunca
porque  sem carga

onde andam agora as imagens
roubadas ao tempo
para nos serem ofertadas um dia?

fotografar não é
procurar a beleza e guardá-la
para concursos negócio ou
gozo próprio narcísico

fotografar é um comprometimento
com o sentir de um tempo
com as gentes que nos olharam e pensaram

amanhã vou lembrar-me de hoje

enchem-se os olhos e a memória sorri

enchem-se os olhos e a memória sorri

(murtosa;regata do bico; 2012)

postais da ria (53)


aos meus amigos josé gomes ferreira e joaquim namorado

afundam-nos

afundam-nos

a ignorância povoa este tempo
mão dada com a incompetência
a arrogância dos velhos tempos

não
amigos meus de sempre
não tenho saudades do futuro

o futuro virá carregado de um passado
que nunca o foi
e isso não é futuro para ninguém
como ter saudades de tal coisa?

o passado que matam sem dó
era o presente que eu gostava de deixar
embrulhado em amor aos vindouros
cuidado por nós todos os de agora
juntos pela memória do onde fomos
morre antes mim o que queria por herança deixar

um dia dir-lhes-ão o nome e escurecerão
mas perder-se-á também a memória
do que destruíram quando foram

fraca gente esta que hoje

afundam-nos e nós deixamos?

afundam-nos e nós deixamos?

(murtosa; cais do bico)

os moliceiros têm vela (15)


a palavra e o silêncio

a palavra e, ao longe, o silêncio

a palavra e, ao longe, o silêncio

um homem calado
é uma estátua fúnebre
plantada numa praça

as pombas agradecem
mais um poiso
e de branco a vestem

amanhã dirão de ti
o teu silêncio de hoje

herança amarga
a tua

a palavra enche o tempo e o espaço

a palavra enche o tempo e o espaço

(ria de aveiro; torreira; s. paio, setembro, 2014)

os moliceiros têm vela (14)


era uma vez …… num país longe da murtosa

o a rendeiro a mostrar o que vale

o a rendeiro a mostrar o que vale

avô, onde nasceste?
na murtosa, meu filho
posso ver no face?
podes filho, está lá

avô, que barco é este?
qual meu filho?
o que está na página da tua terra
esse, meu filho, não sei
acho que deve ser um barco novo
no meu tempo eram os moliceiros

então não era este barco, avô?
não, filho, já te disse que não conheço
mas tu estavas lá quando apareceu este barco?
estava, filho
e deixaste que a tua terra tivesse como símbolo
um barco que não conheces?

mostra-me uma foto de um moliceiro

tão lindo!

sabes filho, nunca imaginei que um dia
tivesse um neto que me fizesse esta pergunta

olha avô agora é tarde para ti
mas se me arranjares a foto de um moliceiro
vou pô-la na minha capa
para um dia dizer aos meus filhos
que na terra do meu avô havia
o barco mais belo do mundo:

o moliceiro

avô, eu gosto muito de ti
mas ……

e ficou em segundo lugar, grande ti zé, em 3 regatas, ganhou 2

e ficou em segundo lugar, grande ti zé, em 3 regatas, ganhou 2

(ria de aveiro; regata do s. paio; setembro, 2014)

porque vai haver um amanhã

os moliceiros têm vela (13)


regata da ria 2014, uma análise

o bando diminui de ano para ano

o bando diminui de ano para ano

realizou-se no dia 29 de junho, a regata anula de moliceiros entre a torreira e aveiro, promovida pela “Comunidade Intermunicipal da Ria de Aveiro”.

os prémios definidos pela organização foram os seguintes:

1- participação: 600 euros para todos os barcos (grandes e pequenos)

2- pinturas:  300; 250; 200;150;100 (consoante a classificação)

3 -regata : 150; 100; 50 (por ordem de chegada)

ou seja, um moliceiro que participasse, ganhasse o prémio de pintura e chegasse em primeiro lugar, fazia o pleno dos prémios e ganhava 1050 euros.

se pensarmos que estamos em dezembro e ainda ninguém, que seu saiba, recebeu alguma coisa, o Manuel Antão que o diga, tendo ainda em conta que, dando o dono do barco a mão de obra, para pagar matérias primas e pagar a pintura, a despesa ronda os 1.500 euros por barco…. se pensarmos nisto, a regata é financiada pelos donos dos barcos e aproveitada pelos do costume.

barcos que participaram, posição à chegada e tripulação:

1º A. Rendeiro

tripulação : José Rendeiro, Rebeço,  (74 anos); Marco Silva (38) e Manuel Antão (63)

2º Dos Netos

tripulação: Abílio Fonseca, Carteirista (76 anos); José Rebelo, Papa-lamas (30); António Salgado (59 anos)

3º Manuel Silva

tripulação: Zé Pedro (14 anos); João Rodrigues (26 anos); Rui Rodrigues, Índio/Russo (23 anos)

4º Zé Rito

tripulação: José Vieira, Rito (58 anos); Manuel Vieira (50 anos)

5º C. M. Murtosa

tripulação: José Caneira (76 anos); José Formigo (60 anos)

sem prémio de chegada

Manuel Vieira

tripulação: Manuel Vieira, Valas (59); Carlos (52)

Marnoto

tripulação; Domingos Marnoto (62 anos); Amadeu Ferreira (51 anos); António Duarte (61 anos)

O Amador

tripulação: Felisberto Amador, Caçoilo (55 anos); Sérgio Amador (42 anos)

Barcos pequenos (9 metros)

Pequenito

tripulação: Manuel Valente, Vareiro (61 anos); Soares (46 anos); Pedro Reis (33 anos)

Cristina e Sara

tripulação: Virgílio Gonçalves (76 anos); Nelson Lopes (35 anos)

vejam as idades dos tripulantes e ficam com uma ideia do futuro das regatas, se nada for feito para motivar os mais jovens.

era uma vez as regatas da ria . . . . , muito em breve

só se dermos as mãos, todos

só se dermos as mãos, todos

(ria de aveiro; regata da ria; junho, 2014)

crónicas da xávega (34) – um homem


de que massa és feito, massa?

de que massa és feito, massa?

quantos homens são
um homem?

não há azinheiras
à beira mar
nem se ouve o cante
de mais ao sul
a solidão morre na areia
sem outra voz
que a do homem
da corda

enterram-se os pés
pesado o fardo
traiçoeiro o caminho
mas um homem
um homem

quando deixa de o ser?

com a massa do massa, não se faz mais nenhum

com a massa do massa, não se faz mais nenhum

(torreira; companha do marco; 2012)

os moliceiros têm vela (12) – a propósito


para onde uns vão, já outros de lá regressam

para onde uns vão, já outros de lá regressam

“já vi fracassar o que era mais razoável
e triunfar o que era mais absurdo”

J. W. Goethe

entre o preto e o branco, quantos níveis de cinzento?

entre o preto e o branco, quantos níveis de cinzento?

(ria de aveiro; regata do s. paio; 2014)

postais da ria (51) – sou murtoseiro


 muito dura a vida na ria

muito dura a vida na ria

a minha gente
fez da água terra

atravessou o mar
em busca de outras terras

a minha gente
é desta terra
mas muitos
aqui não nasceram

a minha gente
fala de amor
quando diz

sou murtoseiro

o olhar só vê a beleza, não vê a dor

o olhar só vê a beleza, não vê a dor

(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (11) – tenho de ganhar o meu


a luta é dura para alguns

a luta é dura para alguns

não digo nada
não faço nada

vou lá de quatro
em quatro anos

a vida custa
custa muito a vida

tenho de ganhar o meu
tenho de ganhar o meu
tenho de ganhar o meu

de quatro em quatro
anos vou lá
nos intervalos calo-me
sempre pode ser que me safe
a mesa é pequena mas as migalhas

tenho de ganhar o meu

que isto não é para todos

que isto não é para todos

( regata da ria; 2013)