postais da ria (60)


hora imprópria

(para o josé antónio pereira)

a luz

a luz

fotografar quando?
como?
porquê?

porque me provocaram

hoje fui à murtosa e um amigo
que me viu
por sinais perguntou
se eu tinha ido fotografar

hora de almoço na torreira
em frente à ria
no meu poiso de bem comer
o veleiro

as bateiras poisadas na ria
a ria poisada em si mesma
a luz feria
a hora imprópria
o desafio
irresistível

a fotografia
a possível

não me provoquem

as cores

as cores

(torreira, 3 de janeiro; 13h)

os moliceiros têm vela (27)


são tantos

o timoneiro da ria, zé rebeço cabelo ao vento

o timoneiro da ria, zé rebeço cabelo ao vento

vêm de longe os que partiram
chegam
trazem memórias e uma vida
por viver
trazem-se mais do que quando
daqui foram

vêm de longe e choram e riem
são muitos
são poucos são os que chegaram

lavados os olhos
é na ria e no mar que renascem
para morrer um dia

são os rios desta terra

homem da ria

homem da ria

(torreira; regata do s. paio; 2014)

postais da ria (59)


para o antónio gama

o dia cai e nós

o dia cai e nós . . . 

hoje vi-te quando
abri o jornal
antes não o tivesse
aberto e visto

continuaria na ilusão
de que tu ainda
embora sem te ver

ficámos mais pobres
mais sós em nós
porque tu sim tu

à hora a que escrevo
(e não sei se consigo)
vais pela mão de outros
para uma cova
onde o teu nome
um retrato
não tu

os amigos vão-se
e eu fico mais pequeno ainda

abraço antónio

como em sangue

como em sangue

(murtosa; cais do bico)

os moliceiros têm vela (26)


és tu

(a muitos amigos)

homens e barcos, o mesmo nome, a mesma luta

homens e barcos, o mesmo nome, a mesma luta

escrever com erros
não é ser menos
é não ter tido como

erro é escrever sem sentir
só para mostrar
que se sabe juntar palavras

erro é esperar que escrevam
para escrever
erro é ser “escriba à janela”

escreve meu amigo
diz o que no ser te vai
que és mais muito mais

és tu

ahcravo_DSC_1013
(torreira; regata s.paio; 2013)

os moliceiros têm vela (25)


a (minha) matemática do tempo

ouço-me para te ouvir

ouço-me para te ouvir

somam-se os dias
subtraem-se os anos
multiplicam-se os instantes
dividem-se as horas
o infinito é já ali
onde ontem

quando sou já fui
quando for não sei
de passagem tão só
sou tudo o que deixei

um ano mais
um ano menos

um ano apenas

a beleza é tão frágil nas mãos do homem

a beleza é tão frágil nas mãos do homem

(murtosa; regata do bico; 2012)