como caem as árvores


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1. ouvi o barulho da serra. levantei-me. vesti-me. peguei na máquina. aproximei-me e comecei a fotografar. que não podia. que tinha de sair. que me tiravam a máquina. semblantes carregados. rostos fechados. cercas encerradas de imediato.

afinal, só estavam a abater 3 árvores. só isso. porquê o medo? porquê? o que é que estava a fazer?

2. voltei mais tarde. de longe. equipado. fica o registo

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3.

a ordem

o homem
a mão
a serra

a ferida
o esticão
a morte

as árvores
dormem nas nuvens
os homens
quando acordarão?

crónicas da xávega (207)


a memória

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o carregar do saco seco na zorra

a memória escreve-se
na areia e vai com o vento

não há malhas que a prendam
e tudo flui somando-se dias aos dias
assim sempre mesmo já quando

saber-lhes os nomes hoje ainda
é mistério que não entendo

aceito
como aceitarei
o não os saber

sei que o tempo
corre numa praia
por onde passo
e já tanto passei

olho tudo com a sensação
de que estive onde estive
sempre de corpo inteiro

assim como não estarei

(torreira; 2016)