crónicas da xávega (365)


sentou-se

costa de lavos; 2017
 
gostava muito de se sentar
e ficar assim a olhar o mar
 
um livro
poisado nos braços
os olhos pendurados no horizonte
 
como era imensa a janela
incomensurável a casa 

(nota: reparem na “ferramenta” de aço inox, utilizada para suportar a manga, a conduzir e impedir que roce na areia. na praia da torreira e na de mira, conhecia a técnica do cruzamento dos bordões/estacadões que se fazia para produzir este efeito. inovação meus caros, na xávega inova-se, é bom que se inove porque é sinal de que continua. será que algum dia, alguém ao ver isto vai dizer que já não é xávega? sei lá?)

a beleza do sal (110)


Recriação da safra à moda antiga” – foto 20

dilema

armazéns de lavos; salina do corredor da cobra; agosto 2020
 quantos és  
 que te não sabes
 
 só és muito
 e tão pouco te sentes
 
 a casa fizeste à tua medida
 pequena e enorme dizes
 tua não é nunca o foi
 
 por entre as paredes
 a solidão cresce
 e és tu em tudo
 
 habitas o dilema
 
 como o sal  
 o tempo escorre  

a beleza do sal (109)


dos mortos

(reflexão breve em tempos de covid)

salina; armazéns de lavos; 2020
 
 o que é só o é
 porque deixou de ser
  
 porque é não o quero
 lembrar quando já não
 
 recuso-me a ver  
 o que é por não ser
 
 gravado na memória  
 o que foi permanece
 
 os mortos não falam
 e eu oiço
 
 ouvirei sempre
 porque vejo diferente