a beleza do sal (109)


dos mortos

(reflexão breve em tempos de covid)

salina; armazéns de lavos; 2020
 
 o que é só o é
 porque deixou de ser
  
 porque é não o quero
 lembrar quando já não
 
 recuso-me a ver  
 o que é por não ser
 
 gravado na memória  
 o que foi permanece
 
 os mortos não falam
 e eu oiço
 
 ouvirei sempre
 porque vejo diferente  
 
 

a beleza do sal (105)


“Recriação da safra à moda antiga” – foto 16

é quando o vento sopra forte

salina do corredor da cobra; 2020
 é quando o vento sopra forte
 que das árvores caem
 ramos folhas frutos
 
 
 alguns vermes
 
 
 é quando o vento sopra forte
 que as gaivotas pairam  
 poisadas no vento
 
 
 por sobre o mar  
 
 
 é quando vento sopra forte
 em dias de sol que se faz
 mais sal no talho
 
 
 mas não flor  

a beleza do sal (62)


não

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ilha da morraceira; enfeitar; 2019

 
não
não gosto do homem velho
é pesada a herança que deixa
 
refinamento do cinismo
violência encapotada
ódio dissimulado
assassino e suicida
 
não
não gosto do homem velho
por muito mau que seja o novo
não pode ser pior
 
não
não sou pessimista ainda sonho
por isso estou aqui
e digo não
 
 

fazer sal na figueira da foz


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em 2016 e 2017 fotografei o salgado da figueira – morraceira e armazéns de lavos.
aprendi os termos”chave da faina e conheci quase todos os marnotos, ou marronteiros.
das diferentes fases do trabalho de fazer sal. mão amiga recolheu neste registo o essencial, dotou-o de música e fez este foto filme.
palavras chave: talho, ugalho, rer, achegar, mexer, cumbeirar, enfeitar.