postais da ria (351)


um puto da ria
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torreira; 2019

 
trago o tempo aos olhos
é ainda o filho nas redes do pai
 
é ainda um puto da ria
que depois da escola safa redes
sem paredes nem janelas
sem professores nem horários
sem exames nem anos a galgar
só marés limos caranguejos
redes para safar
 
é um puto de férias
a safar redes
as redes do pai
e as dos amigos do pai
que dele são também
 
porque todas as redes
são redes dos putos da ria
 
a vida continua
as redes deixaram fugir o pai
 
o puto está preso nas malhas
das redes é um puto da ria
e chama-se filipe como o pai
 

postais da ria (347)


inté
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torreira; 2016

 
um dia
quando eu morrer
vão-te dar uns dias
para estares comigo
 
mas
eu já não estarei
fui-me
 
aproveita esses dias
para estares contigo
não me inventes
nem te reinventes
aproveita o que te dão
pai não morre todos os dias
 
é tarde
são quase horas
de ir lanchar
 
inté

postais da ria (346)


essencial
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torreira; cirandar; 2011

 
como a água essencial
a palavra
filtrada joeirada lavrada
 
na depuração do sonho
acordar apenas
no exacto instante em
que te beijo
 
no ramo restam as flores
com o teu perfume
nos meus dedos ainda
 
torna límpidas as manhãs
mesmo se de nevoeiro
o poema que não escrevi
 
os teus olhos são sempre
o essencial