postais da ria (233)


‘miga

hoje no mercado de buarcos
fui abraçado por uma palavra

‘miga

conheci-a em setúbal
no bairro das fontaínhas
onde murtoseiros pescadores

quando a ouço regresso
aos tempos de eu menino
às vozes que pela ladeira

‘miga

diziam antes de começar
qualquer conversa

tempo em que todos
eram amigos e camaradas
por isso entre pescadores

‘miga

mais que a ouvir senti-a
há palavras assim
que nos chegam como se

um abraço

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a bela e o jim cirandam berbigão

(torreira; cirandar)

postais da ria (230)


escrevo-me aqui

a certidão de nascimento
diz onde nasci nada mais

tenho um endereço
uma rua um número de porta
um andar um espaço
onde correio recebo e durmo

escrevo minha gente
e encontro-a em qualquer geografia
se de injustiça vítimas forem

a minha terra é uma aldeia
onde de centenárias raízes
bebo a água dos dias por haver

escrevo-me aqui

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(torreira; s. paio; 2017)

postais da ria (227)


iludi-me

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torreira, 2016_o arrumar das redes da solheira

da estrada larga
dos luminosos caminhos
infinitamente breves
o maior está feito

o sonho a ilusão
aquilo que me fez correr
hoje nada mais que memória

olho para tudo
com o cansaço de ter feito
sem saber se algo feito foi

tenho a sensação de deixar
tudo como era
faz bem perder as ilusões

sempre me senti barco
mas iludi-me com o porto

iludi-me