skim board_buarcos (11)


não sabe o rio do leito
por ele corre sem o saber

vemos e sabemos o como
o porquê é óbvio e obscuro
de sangue morte e terror
se maquilham palhaços

falsos imperadores
sorriem ante o horror
reis que nus vão foram
muitas vezes eleitos

o bobo abraça o tirano
sonham-se maiores
sádicos poderosos são
mercadores de ódio

não sabe o rio do leito
não sabemos nós da foz

(skimming; buarcos; tamargueira; 2011)

crónicas da xávega (614)


escolho escolher

escolho o que como
o que bebo sei o que posso
onde vou e quando

eu na minha inteireza sou
rocha antiga firme
em convicções e causas

não conheço quem
possa escolher um povo
que não o escolha

é pescadinha de rabo
na boca e isso
só com arroz de tomate

(xávega; zorra carregada com barco em fundo; torreira; 2013)

crónicas da xávega (613)


cavar fundo
revolver a terra

cavar mais fundo
abrir pedras

na raiz da palavra
o coração do poeta

saboreio o fruto
digo o poema

(xávega; rede seca carregada a preceito; o voo do saco; torreira; 2013)

nota: depois de ter secado, estendida no areal, a rede é colocada sobre a zorra – estrado de tábuas pregadas sobre toros, com uma corda para poder ser traccionada – com a seguinte sequência : mão de barca; saco; reçoeiro (terminologia da torreira)

a fala dos retratos (171)


” … quando puder venha nos visitar, alguns de nós sentimos a sua falta … já fazia parte da nossa história … da torreira, era e é um de nós.”

(joão manuel brandão)

(torreira; 2012)

(nota: foto publicada com autorização do retratado. o registo foi feito a bordo da bateira, no final de uma sessão de mariscar com o uso de cabrita alta)

a beleza do sal (213)


vêm de longe os amigos
cheguei dizem

trazem o abraço
preso nos dias vagos

falam a linguagem das aves
poisam e partem

é breve o encontro tão breve
quanto intenso

partem os amigos

estendo-me no tempo
aguardo o regresso
antes de ser noite

(carregar sal no dumper; armazéns de lavos; 2019)

crónicas da xávega (612)


a palavra escrita digo
devagar soletro
a emoção com os dedos

cego caminho pelas letras
repito-me repetes-me
eu sou as minhas palavras

pensava que o sabias
que me ouvias e era gravura
antiga em rocha dura
o que te dizia

sabes não há verdades
eternas nem mentiras que muito
durem o sol hoje é lá fora

não o será sempre
que outras estações virão

(xávega; aparelhar; torreira; 2013)