quando o mar trabalha na torreira_marine


                                          (torreira; anos 90)
olho o peixe
salta na rede
estrebuchando na agonia do sufoco

também isto devo aprender
a linguagem da morte
não me será jamais estranha

gostaria de brincar
com aqueles peixes prateados
as minhas bonecas de menina
vivas

mas
este não é lugar de brincar

no meu rosto
a mulher que deste tamanho já sou
contempla o trabalho que a rede encerra
em que participei
com as migalhas que tinha para dar

como são grandes estes dias!
com eles cresço e fico maior
mulher do mar


(do meu livro "quando o mar trabalha")

aos vencedores anónimos


um homem novo

ninguém pode desconhecer que a droga mais consumida, legal e mortífera, em portugal, é o álcool.

o seu consumo em excesso é uma das principais causas de morte no nosso país, quer directa, quer indirectamente.

as comunidades rurais e piscatórias são das mais afectadas por este flagelo. por isso, quando alguém se consegue libertar do seu consumo é uma vitória com uma dimensão muito superior ao que qualquer de nós pode imaginar.

nos últimos anos a torreira tem assistido a vencedores silenciosos na batalha contra o consumo. são homens que conseguiram por vontade própria abandonar totalmente o álcool.

são homens novos, remoçados e sorridentes. estão mais vivos que nunca e são felizes como não se lembram de o ter sido.

a todos aqueles que por este país estão em luta para deixar o consumo, ou já o conseguiram, quero deixar a minha homenagem com o retrato de um grande amigo que hoje aqui publico.

este é um vencedor anónimo, um herói silencioso, sorridente, humilde e sem medalhas, que não as que a si próprio todos os dias apõe.

quando o mar trabalha na torreira_henrique da bóia


(henrique da bóia; torreira; anos 90)

há quanto tempo não sonho

afinal o mar não é de vinho
e o ti borras nunca foi à américa

ficámos onde nascemos

lembro-me de
criança ainda
ajudar a minha mãe na escolha do peixe
ver no meu pai
o eu de amanhã

as dunas
eram então o meu esconderijo
agachado no seu ventre espreitava
o futuro

era o mar
que me chamava

um painel com história dentro


painel da ré do moliceiro do ti zé rebeço

na minha opinião o moliceiro será um dos mais belos barcos do mundo, digo um dos mais belos porque não os conheço todos, mas certamente será, para além de ser um barco com uma configuração esbelta.

um dos aspectos mais importantes do moliceiro é a decoração, com especial cuidado nas pinturas dos painéis da ré e da proa, num total de 4. teses de doutoramento existem sobre estas decorações, tipologias e significados, tal a importância que revestem na história destes barcos.

este painel da ré do moliceiro a.rendeiro, do ti zé rebeço, da murtosa é, para mim, um dos mais belos que encontrei nos últimos anos: é a história do barco dentro dele mesmo.

a pintura retrata os tempos áureos do moliceiro e fala-nos do que foi, sem saudade, enaltecendo a beleza passada.

deixo-vos esta imagem e nela um pouco da história da ria de aveiro.

(torreira, regata de moliceiros 2011)

efémero


espuma do tempo
isto somos
tudo e nada
o momento o diz

onde fomos
ainda seremos?
onde somos
seremos o que fomos?

quando não formos
quem será
o que fomos?

sento-me
em frente ao mar
não penso
sento-me
apenas

isso sou
hoje
aqui
onde estou

um homem sentado
a olhar o mar

(torreira; 2010)