vêm à vela
as palavras
poisam em mim
cisnes brancos
vêm de longe
as palavras
trazem nomes
gestos saberes
vêm tristes
as palavras
são moliceiras
traídas
(moliceiros; regata da ria; torreira; 2013)
quando há festa na aldeia
por vezes aparece um ser
andrajoso com folhas A quatro
que estende a quem passa
há dias lá estava de novo
cruzei-me com ele na rua
e como o meu amigo álvaro
tirei uma moeda do bolso
não das maiores e ofereci-lha
que não não queria dinheiro
estendeu-me uma folha
cheia de rostos e quadrados
indicou-me um deles e disse
quero uma cruz neste
tá bem tá disse-lhe eu
uma moeda ainda ia
agora quadrados e cruzes
só nas palavras cruzadas
ou no recato de uma cabine
por mera curiosidade perguntei-lhe
o que fazia e como se chamava
ao que me respondeu cabeça baixa
faço asneiras apelido esquerdatriste
(moliceiros; regata da ria; torreira; 2013)
Era uma vez o Barco Moliceiro
Em 2022 foi inscrito no Património Cultural Imaterial Nacional o “Barco Moliceiro: Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro , ou com “Outras denominações” : Construção e Pintura de Moliceiros; Construção do Barco da Ria de Aveiro.
Não é por acaso que o “Barco Moliceiro” aparece na designação da aprovação, ele é bandeira e ilusão. No descritivo apresentado e aprovado é dada grande relevância ao Barco Moliceiro e suas características, porém no último parágrafo pode ler-se:
“Adaptações construtivas do Barco Moliceiro para a atividade turística: Com o desenvolvimento da atividade turística a partir do início dos anos 2000 registou-se um crescimento do número de embarcações existentes – depois da diminuição de barcos moliceiros verificada partir dos anos 50 (ver Doc1_ResenhaHistorica, pág.45) – tendo levado a alguns ajustes e a adaptações construtivas em prol da segurança dos turistas, por um lado, e para permitir a navegação nos canais urbanos da Ria de Aveiro, por outro. Importa, contudo, referir que todo o processo e método de construção de carpintaria naval do Barco Moliceiro, dinamizado pelos Mestres, se mantém fiel aos padrões originais, havendo apenas algumas alterações a nível de estrutura e tamanho, a saber: • Mastro – o mastro que sustenta a verga, onde prende a vela foi “retirado” para possibilitar a circulação das embarcações que navegam nos canais urbanos da Ria. • Falcas – as falcas, pranchas que se ligam, entre si, por justaposição e que se colocam no bordo do barco, são atualmente fixas para permitir que a embarcação tenha mais altura e por consequente maior segurança para os turistas. No passado eram amovíveis. • Assentos – para uma maior comodidade dos turistas durante os passeios foram introduzidos assentos em volta da embarcação. • Cavername – todas as cavernas são niveladas por forma a que o chão seja mais estável para a circulação de pessoas. • Método de propulsão – Andar à vela, andar à vara e andar à sirga deixaram de ser os métodos de propulsão do Barco Moliceiro mais utilizados na navegação, sobretudo, nos canais urbanos, tendo sido introduzido o motor como alternativa. • Tamanho da embarcação – de forma a servir o propósito para a atividade turística as construções são, por vezes, ligeiramente mais compridas e mais largas, ultrapassado os tradicionais 15m de comprimento de 2,50/2,60m de boca. De forma geral, e pese embora estas alterações, o Barco Moliceiro mantém uma estrutura muito similar à original, quer ao nível construtivo, quer decorativo. “
(https://matrizpci.patrimoniocultural.gov.pt/InventarioNacional/DetalheFicha/818?dirPesq=0)
Espero que tenham lido a totalidade da transcrição porque ela aparece, estranho seria se assim não fosse, como último parágrafo de um documento extenso. Será para não ser lido?
Ou seja, a partir da inscrição no Património Cultural Imaterial Nacional em 2022, os barcos que circulam nos canais de Aveiro, passaram a poder ser designados por “Barcos Moliceiros”, facto que não é, nem será nunca, pacífico para os estudiosos e amantes do Barco Moliceiro.
Com a inscrição no Património Cultural Imaterial da Humanidade em 2025, dia 09 de Dezembro para ser mais exacto, esta designação passa a ser reconhecida pela UNESCO, e ai de quem diga que não há Moliceiros nos canais de Aveiro.,
A farsa foi levada ao palco do país, e agora da humanidade, com o aplauso dos autarcas da CIRA e, nomeadamente, dos autarcas que reivindicam ser a sua terra a pátria do Moliceiro. Soltem-se foguetes, faça-se notícia e prepare-se o funeral do Barco Moliceiro que a ria conheceu.
(moliceiros; regata do s. paio; torreira; 2017)
no jornal online “Notícias de Aveiro”
a eugénio de andrade
não há palavras
interditas perante o horror
netanyahu assassino
bombas e mísseis
lavraram a terra
que o sangue regou
nos escombros de gaza
um braço nasce
uma perna perdeu-se
desumana lavoura esta
semeadura de mortos
colheita de amputados
netanyahu assassino
não há palavras
interditas perante o horror
(moliceiros; regata do emigrante; cais do bico; murtosa; 2014)
hoje é dia de s. paio
os cisnes da ria poisam e voam
sobre a lisura das águas
livres de gabinetes e cálculos
de enganos elaborados
por mandantes e candidatos
é hora de vender gato por lebre
é tempo há muito tempo
de semear ilusões e colher pelouros
os moliceiros são o colorido da ria
onde negros corvos
fazem falsas promessas colhem votos
cargos futuros euros
os cisnes da ria livres e belos
nunca serão património nacional
sequer da humanidade nunca
os cisnes da ria são moliceiros inteiros
homens e barcos fundidos
na herança na tradição e no sonho
os cisnes da ria poisam e voam
sobre a lisura das águas
ignoram o cinismo são emblema
(regata de moliceiros; s. paio; torreira; 2017)