os moliceiros têm vela (588)


não sei quantos mortos são precisos
para encher um barril de petróleo

a morte é inteligentemente distribuída
ao domicílio os mortos servem-se frios
à mesa do lucro e do deificado dólar
os pastores conduzem o rebanho
para o abismo e as ovelhas aplaudem

incontáveis os corpos que cabem
numa vala comum

nas televisões especialistas ensinam
a investir na bolsa em tempo de guerra
a transformar o horror que silenciam
em negócios certos em ganhos seguros
deus ainda não está cotado em bolsa

não sei quantos mortos são precisos
para encher um barril de petróleo

(moliceiros; esperar pela maré; regata do emigrante; cais do bico; murtosa; 2007)

os moliceiros têm vela (586)


um moliceiro para diamantino dias

em 2012 a regata da ria foi cancelada, quase de véspera, e alguns moliceiros foram, em protesto, da torreira a aveiro com bandeira negra hasteada e os painéis cobertos de plástico da mesma cor.

foi de diamantino dias a ideia, que concretizou, de a regata da ria partir da torreira e proporcionar o espectáculo a que tantos hoje assistem e/ou fotografam ao longo do percurso, como tinha imaginado.

justo seria que quem tem a responsabilidade, directa ou indirecta, da realização da regata da ria, decidisse que em 2026 os moliceiros hasteassem bandeira negra em memória de diamantino dias e que o seu nome fosse relembrado na cerimónia de atribuição de distinções.

seria mais justo se diamantino dias assistisse, como até há uns anos, à chegada e ao concurso de painéis. seria justo mas diamantino dias terminou dia 15 de fevereiro a sua regata.

até breve amigo

(moliceiro; a regata da ria que não chegou a haver; 2012)

no Notícias de Aveiro

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/moliceiros-tempo-para-morrer/

O moliceiro é património de quem o pagou


a pátria onde Camões morreu de fomee onde todos enchem a barriga de Camões!

Almada Negreiros

Duas histórias

Era miúdo quando o conheci e enquanto o avô construía um moliceiro ele copiava os moldes e fazia miniaturas e ajudava no que podia. Aos treze anos, como timoneiro de um moliceiro com uma tripulação jovem, quase ganhou a regata da ria. Quando teve idade para começar a trabalhar, foi na ria que fez vida. Quando pôde, junto com o avô construiu o seu moliceiro.

Entre as artes da ria e as campanhas no alto mar foi ganhando a vida, nunca perdendo uma regata de moliceiros. Até que um dia comprou o seu.

Dois jovens, dois torrecos, duas apostas no futuro do moliceiro.

O primeiro, em comentário a uma publicação que fiz no facebook, escreveu:

Os moliceiros só sao lembrados nos dias de regatas e dois ou três dias depois de cada uma delas.

É pena mas é o que temos

Um abraço a si senhor cravo e muita saúde”

Por essa altura, antes ou depois, o moliceiro foi posto à venda.

O segundo, quando os meios de comunicação noticiaram que “ o Barco Moliceiro é Património da Humanidade”, deitou o moliceiro à ria, içou vela, festejou e divulgou um vídeo em que a alegria era transbordante.

Dois jovens, dois sonhos que não merecem ser enganados e deixados por conta própria, a alimentar o sonho com o suor de cada dia, enquanto nas varandas do poder se enche o peito e os negócios as gavetas.

Não merecem ser enganados, mas apoiados e incentivados, eles e todos os que como eles, seja qual for a idade, amam o moliceiro e a ria aberta – a única onde há moliceiros.

Isto só para citar dois casos, que mais haverá.

Barco Moliceiro: Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro “

Vem isto a propósito da candidatura apresentada pela CIRA ao Instituto do Património Cultural e mais recentemente à UNESCO, do projecto “Barco Moliceiro: Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro “ e que ficou inscrita no Património Cultural Imaterial Nacional e da Humanidade.

Leia-se bem: “Património Imaterial”. O moliceiro é imaterial? Quem acha que, a partir da aprovação do projecto pela UNESCO, o moliceiro é Património da Humanidade faça a seguinte experiência: dê uma cabeçada na proa do moliceiro e veja se doeu ou a atravessou como se nada fosse. Se doeu, meus amigos, não é imaterial e se não é imaterial não é Património da Humanidade. Simples não é?

No Património Cultural Imaterial, segundo o Instituto do Património Cultural, inscrevem-se “expressões orais de transmissão cultural e das técnicas e saberes tradicionais, e da promoção do registo gráfico, sonoro e audiovisual do Património Cultural sem suporte material”, assim sendo jamais o Barco Moliceiro pode ser inscrito no Património Cultural Imaterial, mas a arte da carpintaria naval que o constrói, essa sim, e foi essa que foi inscrita na UNESCO. Aparecer na designação da candidatura “Barco Moliceiro” é como a cereja no cimo do bolo, pura decoração (aparentemente, mas fico por aqui porque em artigo anterior já disso falei).

O Barco Moliceiro poderia, quando muito, ser inscrito no Património Cultural Material Móvel,e era por aí que deveria ter sido conduzida uma candidatura, se houvesse interesse efectivo em que o Barco Moliceiro fosse Património da Humanidade.

Mas nem tudo são más notícias a “ Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiroé Património da Humanidade, ficou definido o que é um Barco Moliceiro(os barcos que andam nos canais de Aveiro também o são), está preservada a tradição da construção. Haja quem tenha dinheiro para os mandar construir.

Resumindo e concluindo, para quem quiser mandar construir um moliceiro, e usando um ditado popular, “Tudo como dantes, quartel general em Abrantes”. Ou será que, face à aprovação, os Municípios da Beira-Ria vão conceder apoios directos e a fundo perdido, com condições claro, a quem quiser mandar construir um moliceiro? O custo de um Barco Moliceiro rondará de 20.000 euros, completamente aparelhado.

É esta a questão de fundo e da qual pode depender a sobrevivência do Barco Moliceiro, ou somente dos “turisteiros” – depois da candidatura aprovada são “Barcos Moliceiros adaptados para fins turísticos” – que circulam nos canais de Aveiro e geram fluxos financeiros consideráveis.

CIRA e Municípios da Beira-Ria a bola está do vosso lado e com ela o futuro do Barco Moliceiro.

artigo publicado no jornal “Notícias de Aveiro” de 23 de janeiro de 2026

https://www.noticiasdeaveiro.pt/o-moliceiro-e-patrimonio-de-quem-o-pagou/

(regata do s, paio; torreira; 2014)

https://www.noticiasdeaveiro.pt/o-moliceiro-e-patrimonio-de-quem-o-pagou/

os moliceiros têm vela (583)


quando há festa na aldeia
por vezes aparece um ser
andrajoso com folhas A quatro
que estende a quem passa

há dias lá estava de novo
cruzei-me com ele na rua
e como o meu amigo álvaro
tirei uma moeda do bolso
não das maiores e ofereci-lha

que não não queria dinheiro
estendeu-me uma folha
cheia de rostos e quadrados
indicou-me um deles e disse
quero uma cruz neste

tá bem tá disse-lhe eu
uma moeda ainda ia
agora quadrados e cruzes
só nas palavras cruzadas
ou no recato de uma cabine

por mera curiosidade perguntei-lhe
o que fazia e como se chamava
ao que me respondeu cabeça baixa
faço asneiras apelido esquerdatriste

(moliceiros; regata da ria; torreira; 2013)

os moliceiros têm vela (580)


Era uma vez o Barco Moliceiro

Em 2022 foi inscrito no Património Cultural Imaterial Nacional o Barco Moliceiro: Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro , ou com “Outras denominações” : Construção e Pintura de Moliceiros; Construção do Barco da Ria de Aveiro.

Não é por acaso que o “Barco Moliceiro” aparece na designação da aprovação, ele é bandeira e ilusão. No descritivo apresentado e aprovado é dada grande relevância ao Barco Moliceiro e suas características, porém no último parágrafo pode ler-se:

Adaptações construtivas do Barco Moliceiro para a atividade turística: Com o desenvolvimento da atividade turística a partir do início dos anos 2000 registou-se um crescimento do número de embarcações existentes – depois da diminuição de barcos moliceiros verificada partir dos anos 50 (ver Doc1_ResenhaHistorica, pág.45) – tendo levado a alguns ajustes e a adaptações construtivas em prol da segurança dos turistas, por um lado, e para permitir a navegação nos canais urbanos da Ria de Aveiro, por outro. Importa, contudo, referir que todo o processo e método de construção de carpintaria naval do Barco Moliceiro, dinamizado pelos Mestres, se mantém fiel aos padrões originais, havendo apenas algumas alterações a nível de estrutura e tamanho, a saber: • Mastro – o mastro que sustenta a verga, onde prende a vela foi “retirado” para possibilitar a circulação das embarcações que navegam nos canais urbanos da Ria. • Falcas – as falcas, pranchas que se ligam, entre si, por justaposição e que se colocam no bordo do barco, são atualmente fixas para permitir que a embarcação tenha mais altura e por consequente maior segurança para os turistas. No passado eram amovíveis. • Assentos – para uma maior comodidade dos turistas durante os passeios foram introduzidos assentos em volta da embarcação. • Cavername – todas as cavernas são niveladas por forma a que o chão seja mais estável para a circulação de pessoas. • Método de propulsão – Andar à vela, andar à vara e andar à sirga deixaram de ser os métodos de propulsão do Barco Moliceiro mais utilizados na navegação, sobretudo, nos canais urbanos, tendo sido introduzido o motor como alternativa. • Tamanho da embarcação – de forma a servir o propósito para a atividade turística as construções são, por vezes, ligeiramente mais compridas e mais largas, ultrapassado os tradicionais 15m de comprimento de 2,50/2,60m de boca. De forma geral, e pese embora estas alterações, o Barco Moliceiro mantém uma estrutura muito similar à original, quer ao nível construtivo, quer decorativo.

(https://matrizpci.patrimoniocultural.gov.pt/InventarioNacional/DetalheFicha/818?dirPesq=0)

Espero que tenham lido a totalidade da transcrição porque ela aparece, estranho seria se assim não fosse, como último parágrafo de um documento extenso. Será para não ser lido?

Ou seja, a partir da inscrição no Património Cultural Imaterial Nacional em 2022, os barcos que circulam nos canais de Aveiro, passaram a poder ser designados por “Barcos Moliceiros”, facto que não é, nem será nunca, pacífico para os estudiosos e amantes do Barco Moliceiro.

Com a inscrição no Património Cultural Imaterial da Humanidade em 2025, dia 09 de Dezembro para ser mais exacto, esta designação passa a ser reconhecida pela UNESCO, e ai de quem diga que não há Moliceiros nos canais de Aveiro.,

A farsa foi levada ao palco do país, e agora da humanidade, com o aplauso dos autarcas da CIRA e, nomeadamente, dos autarcas que reivindicam ser a sua terra a pátria do Moliceiro. Soltem-se foguetes, faça-se notícia e prepare-se o funeral do Barco Moliceiro que a ria conheceu.

(moliceiros; regata do s. paio; torreira; 2017)

no jornal online “Notícias de Aveiro”