pedem-me palavras
as mãos
é sempre de norte o vento
que leva o tempo
gasta corpos redes barcos
pedem-me palavras
as mãos
e eu com as minhas vazias
reinvento a memória dos dias
(xávega; reparar redes; torreira; 2007)
dezembro começou com sol
dia bom para lavar e secar o natal
fiz máquina com todos os ingredientes
anticalcário detergente amaciador
programa longo
dupla centrifugação à rotação máxima
estendi na varanda coberta
não fosse a chuva tecê-las
esperei que secasse
quando o tirei da corda estava na mesma
manchas de sangue nódoas de lágrimas
aquele vermelho berrante de refrigerante
enlatado entranhado
depois de tanto trabalho o resultado
foi levá-lo para o contentor de reciclagem
e esquecer mais um investimento familiar
(xávega; dar o porfio; torreira; 2012)
este é o meu tempo
o meu mundo é aqui
se quero ser é aqui e agora
recuso-me a ficar sentado
à soleira da porta a falar
com as árvores e as flores
ou contigo amor que invento
costas viradas ao coração da casa
não ouvindo não vendo
a desumanidade dentro dela
é aqui e agora
com as parcas armas que tenho
palavras palavras tão pobres
mas que mordem ferem cortam
denunciam
é aqui e agora
ou amanhã não sei onde
terei vergonha de não ter sido
por isso escrevo
porque a realidade ultrapassa
é o genocídio em gaza
(xávega; dar o porfio; torreira; 2011)