os moliceiros têm vela (97)


body 0113

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um número numa caixa de madeira
depois de ter sido um número numa terra
numa estatística numa máquina de fazer números
um número onde cabem inúmeros só números
sem nome sem família sem data de nascimento
só registo de morte e vala comum a tantos números

um número cada vez maior
nas contas dos bancos offshore
do petróleo das matérias primas
da madeira do petróleo do petróleo
do domínio da geografia onde
for possível ainda sugar dólares euros
de corpos cansados famintos destruídos

corpos sem cotação aparente
no mercado de valores commodities nasdak
nada que possa ser adquirido trocado
valorizado considerado investimento
corpos amarrados sugados espoliados
corpos escravizados pelos senhores da guerra
das fábricas de armamento florescentes
de um ocidente decadente e cínico

body 0113
não descanso em paz

o mar pode ser nostrum
mas com que direito o transformamos
no cemitério vostrum?

a globalização do capital é uma frase gasta
mas é uma realidade dura negra árabe
carregada de balas mísseis torturas genocídios
medo fome doença miséria destroços humanos
fuga roubo estupro fuga roubo morte

body 0113
não descanso em paz
não descanso
não

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(ria de aveiro; regata da ria; 2014)

crónicas da xávega (60)


de nós

tempo de espera, luciano

tempo de espera, luciano

houve os que partiram
e a quem chamaram heróis
nem todos regressaram

outros houve que ficaram
não por não serem heróis
mas por amor à terra

de uns e de outros vimos
que dois povos diferentes são
diversos no estar e no ser

uns serão do aceitar
outros do questionar

o maria de fátima e o luciano caravela

o maria de fátima e o luciano caravela

(torreira; companha do marco; 2013)

os moliceiros têm vela (96)


retrato de uma primavera

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contam com a memória
não a lembrança incómoda
mas o esquecimento de

são os senhores da guerra
e os fazedores da paz
depois de a terem deflagrado

facturam sempre e com tudo
vendem o sangue
que fizeram derramar e é negro

foram eles que inventaram
o espectáculo
que hoje denunciam bárbaro

moram sempre longe
estão sempre perto
e acreditam em deus

que não lhes perdoará

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(torreira; regata do s. paio; 2012)

os moliceiros têm vela (95)


gorim

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escrevo gorim
e sou mais do que eu

são pescadores da xávega
e da ria onde companha tiveram
na azambuja um esteiro
houve com o seu nome
murtoseiros sempre
até nas partidas sem regresso

escrevo gorim
com m de murtosa
termino assim

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(torreira; regata do s. paio; 2010)

os moliceiros têm vela (94)


postal de longe

a chegar a aveiro

a chegar a aveiro

quisera não gostar de ti
de te sentir
tão por dentro de mim
como se eu

quisera não te saber
o passado
preso no meu nome
família de

quisera não gostar de ti
assistir
de olhos secos e mudo
cúmplice
moderno sobrevivente

quisera não me deixasses
assim sem terra
nem raízes nem história
deserdado de mim

se é este o teu futuro
seja
mas não contes comigo
nele

antes não te ver mais
para te ofertar como foste

chamam-lhe recachia

chamam-lhe recachia

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)

os moliceiros têm vela (93)


retrato com moliceiros

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de grande tem a terra
o cemitério a saudade
o silêncio

as casas vazias muitas
para retornos breves
a ausência

há moliceiros a vogar na ria
nunca o longe foi tão perto

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(torreira; regata do s. paio; 2014)