hoje fui ver os meus
cravos que já foram
sob cravos vivazes
vermelhos de sangue
um cravo olhou-os
todos
e foi mais
hoje fui ver os meus
cravos que já foram
sob cravos vivazes
vermelhos de sangue
um cravo olhou-os
todos
e foi mais
o barco vai partir as gaivotas barcos de outros ares esperam peixe na rede sobras a rolar nas ondas o barco vai partir enfrentar as ondas correr atrás do vento voar atrás das nuvens planar sobre as águas sorte se encontrar um cardume perdido e o transformar em refeição o barco vai partir partimos com ele ? só para ver como a vida no mar é dura
(torreira; anos 90)
o óscar miguel ainda ia ao mar. hoje nada mais resta que a memória fotográfica. o desleixo com o património e a sua preservação, fizeram com que do último barco de mar que trabalhou com tracção animal nada mais reste
imagem retirada de http:/bloguite.com
(o macho lusitano)
o macho lusitano, sangue na guelra,
latino. conhece do engate a técnica.
malandro no chapéu, no bigode fino,
no olhar castigador. sem jeito investe.
a fêmea rodeia, cerca, encurrala. o
cigarro portuguesmente crava: o pretexto
para o diálogo, para os olhos nos olhos.
o torso musculado exibe. promessas de
cama no olhar cúmplice de malícia. o
macho lusitano, sangue na guelra, latino.
gingão nas ancas, marinheiro nas pernas,
conhece do engate a técnica …..
e falha
(resta-me crescer para a terra) pedregulhos imensos borbulhas disformes cobrem a terra a água nasce gelada para a minha sede nuvens raras brincam estranhos jogos selvagem meio rude paisagem é noite as trutas aguardam a hora de beijar no espelho da lagoa as migalhas ancestralmente os homens juntam-se em torno do fogo o fogo cerca a água chamados nocturnos oiço a tenda pequena junta-nos o chão duro magoa os corpos vivos é manhã o corpo entrego à água refrescando o cansaço para melhor morrer então cresço para a terra só as serras crescem para o céu
(macieira; serra da gralheira; 2008)
arrumadas as artes o barco adormece suavemente nos braços da areia uma gaivota perde-se no longe antes de lhe vir fazer companhia na tasca os homens convivem recordam histórias antigas jogam às cartas e ao dominó entre dois copos de três três copos, quantos a noite é longa na barraca na casa económica aguardam a mulher e os filhos é ela que guarda a casa que garante que este barco não se afunda como é belo o fim do dia
(torreira; 2008)

são os mais pequenos mas também é deles a beleza se houvesse vento sobre as águas da ria voariam aves diversas belezas para os olhos de todos despesas para os bolsos dos poucos que ainda olhaste e viste? por detrás do moliceiro cada vez menos há homens antigos moliceiros homens com H do tamanho do mastro maior da vela mais alta homens que à ribalta dos média levam os que a eles migalhas dão que este não é um poema é uma promessa o vento que hoje não houve passará por aqui e levantará outras velas descobrindo como vamos e de que fibra são feitos os homens da ria
(murtosa; regata do bico; 2010)
(torreira; anos 90; do meu livro “quando o mar trabalha)
tem pelo na venta dizem é duro viver aqui arrancar com as minhas mãos o pão ao mar ser como o meu homem sem favor de ninguém o sal queima e endurece a pele envelheço com a fome de inverno que o tinto aquece tenho pelo na venta sim quem o quiser negar que venha ver trabalhar o mar
uma gargalhada
os olhos rasos de tanto
(you know what i mean?)
um estar na vida como
no palco
um homem de todos os homens
uma gargalhada até à última
(any way)
partir partilhando
vertical
não consigo tony
agora quando te revir
serão as lágrimas por ti
pelo que estás a fazer
e eu ficarei sem saber
onde quer que estejas
onde quer que mores
há um colete de vaca pendurado
à espera que o vistas
umas bejecas, entre tremoços
e um cigarrito
http://www.youtube.com/watch?v=wnJRRibuExs
http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1630217&seccao=Teatro