povo que lavas no rio


 

o meu povo

 

na água fria
os dedos mergulham
gretados dedos
mãos brancas
mais que a roupa
que lavam

o tempo foi
o tempo voltou
o meu povo
volta a lavar no rio
de lágrimas feito

(a electricidade sobe 3,8%
mexia mexe-se na cadeira
pensa no prémio, satisfeito)

na pedra a roupa
o sabão por sobre ela
arranha, e não rasga
limpa as nódoas de um dia
a dia cada vez
mais negro

o meu povo
tem os dedos gretados
e vê passar os carros
com os olhos que nas costas
lhe inventaram

as mãos e os peixes, pão são


as mãos e os peixes

 

de joelhos na areia
curvados sobre o pão
do mar
as mãos
sempre as mãos
separam, apartam, cuidam de
se não picar na lacraia
peixe-aranha
cuidam
mas não param
ágeis, frágeis, rudes
mãos de peixe
mãos de pão

mãos de homens de mulheres
de joelhos no chão

(praia de mira, companha do zé monteiro)

manuel castelhano. presente!


 

manel castelhano

ser pescador aqui
é viver da fome do mar
é chamar turista

a estrada larga alcatroada
não mereceu nome de ninguém
ficou só “ circunvalação“

assim se destrói a memória
da xávega
com alcatrão

vendem-nos
a imagem no postal
para nos matarem
no local

( o manel já navega noutros mares, aqui continua a ir ao mar.

falo da torreira)

dos moliceiros


outros ...

 

estão ali
deitados
à babugem da maré
no lodo do seco
onde antes areia
água límpida

aguardam
o acordar
o até sempre
a regata
o apodrecimento

a pátria dos moliceiros
mátria não é
cada vez mais nem de carpideira
estatuto terá

estudemos pois
como é nossa tradição
os que vão morrer
a quem só falta o circo
e césar para saudar

(torreira- monte branco)

 

os velhos (II)


pouco a pouco

recuperam do passado os rostos

a memória

também ela se vai gastando no refazer de caminhos

os nomes

esvaem-se no tempo

como é que se chamava o nosso sargento ?

do que ontem ardia

hoje apenas algumas cinzas

o vento dos dias

pelo tempo a memória espalhou

são três

e à mesa do café jogam

cartas velhas de sebo

batotas antigas de casernas rancho marchas

lembras-te ?

são três e recordam

e assim se unem os velhos