
cipriano brandão (gamelas)
o meu amigo cipriano

homem do mar e da ria, uma voz a ouvir
(torreira; porto de abrigo)

cipriano brandão (gamelas)
o meu amigo cipriano

homem do mar e da ria, uma voz a ouvir
(torreira; porto de abrigo)
moliceiros, uma paixão
(o coração tem razões
que a razão desconhece)
quero-te dizer que tens razão
é a paixão que move estes homens
que os faz serem maiores que eles
terem o tamanho do mundo
que sonharam e constroem a cada dia
quero-te dizer que tens razão
mas também que não há razão que explique
a razão de pensares como pensas
de estares onde estás
por isso és a irracionalidade personificada
quero-te dizer que tens razão
mas quero-te dizer que isso não basta
nunca a razão mudou o mundo
só o sonho e a paixão o fizeram
por isso de ti não espero a mudança
quero-te dizer
que o futuro começou ontem
e não me parece que o saibas
sou dos que sonham
e isso pode ser perigoso
aqui
(amanhã é dia de regata e, incansável, o ti zé rebeço ajuda a erguer o mastro do s. salvador. todos os moliceiros são o moliceiro
torreira; estaleiro do mestre zé rito; 26 junho, 2015)
o meu amigo alfredo amaral
o tempo vai-se escrevendo
o nome dos amigos
os que partiram
os que ainda resistem
os que já não podem
escrevi o teu nome
alfredo quando menino ainda
vinhas para o mar
com a tua mãe e foi na areia
onde brincavas
que aprendeste a conhecer a arte
durante anos
mestre do reçoeiro
camarada de muitos
amigo de todos
mais um na companha
indo sempre para além
do que pensávamos
poderes dar
o ti américo que o diga
o marco que o negue
companheiro
ficas agora em terra
a olhar o mar
sei como te deve doer
mas doía-te mais o fazer
espero-te sempre a sorrir
a inventar um homem dentro
da criança grande
o mar ao pé de ti alfredo
é tão pequenino
(torreira; companha do marco; 2013)
o meu amigo joão magina
nasce-se na ria
como se em casa
cresce-se numa bateira
como se na rua
a vela por paixão
a ria por estrada
as redes as cabritas
as velas e as regatas
por sobre as águas
amigos tenho
de idades várias
gerações muitas
pais tios avós
todos
mas todos
com a ria no sangue
e o futuro incerto
(torreira; marina dos pescadores)
a ria não dá para camaradas
um saco de 20 kg ao ombro
depois de várias horas curvada
na apanha no cirandar na escolha
a maior fábrica do distrito
emprega homens e mulheres
da murtosa e arredores
mariscadores desempregados
legais e clandestinos
ganham na apanha dos bivalves
o amargo pão que levam à boca
a ria não dá para camaradas
e elas deixam a casa e vão
na bateira ao lado do homem
mais dois braços duas pernas
o corpo depressa se desgasta
no rosto os traços fundos
cavados pelo sal o sol a dor
são as mulheres da ria
(torreira; marina dos pescadores)
homem de mar
de poucas falas e muito saber
não lhe sei a idade
conheci-o no mar
na faina das companhas
anda agora apoiado
num cajado improvisado
em passeios curtos
com os olhos presos nas ondas
perdidos de já não
paramos conversamos
dizemos palavras poucas
silêncios que se dizem
nos olhos
família antiga na torreira
gerações muitas
com registo nas companhas
os acabou não acabam
diz
leio-lhes os nomes nos livros
em séculos que lá vão
o ti antónio caminha e parte
eu fico com a memória
e algo mais que aprendi
a vida não é mais que isto
ouvir e arrancar um sorriso
palavras mesmo se poucas
onde só a saudade
enche os olhos de sal
até já ti antónio
(torreira; 2013)