moliceiros, uma paixão


moliceiros, uma paixão

o grande ti zé rebeço

o grande ti zé rebeço

(o coração tem razões
que a razão desconhece)

quero-te dizer que tens razão
é a paixão que move estes homens
que os faz serem maiores que eles
terem o tamanho do mundo
que sonharam e constroem a cada dia

quero-te dizer que tens razão
mas também que não há razão que explique
a razão de pensares como pensas
de estares onde estás
por isso és a irracionalidade personificada

quero-te dizer que tens razão
mas quero-te dizer que isso não basta
nunca a razão mudou o mundo
só o sonho e a paixão o fizeram
por isso de ti não espero a mudança

quero-te dizer
que o futuro começou ontem
e não me parece que o saibas

sou dos que sonham
e isso pode ser perigoso
aqui

todos os moliceiros são o moliceiro e o ti zé ajuda quem precisa

todos os moliceiros são o moliceiro e o ti zé ajuda quem precisa

(amanhã é dia de regata e, incansável, o ti zé rebeço ajuda a erguer o mastro do s. salvador. todos os moliceiros são o moliceiro

torreira; estaleiro do mestre zé rito; 26 junho, 2015)

crónicas da xávega (72)


o meu amigo alfredo amaral

o meu amigo alfredo

o meu amigo alfredo

o tempo vai-se escrevendo
o nome dos amigos
os que partiram
os que ainda resistem
os que já não podem

escrevi o teu nome
alfredo quando menino ainda
vinhas para o mar
com a tua mãe e foi na areia
onde brincavas
que aprendeste a conhecer a arte

durante anos
mestre do reçoeiro
camarada de muitos
amigo de todos
mais um na companha
indo sempre para além
do que pensávamos
poderes dar
o ti américo que o diga
o marco que o negue

companheiro
ficas agora em terra
a olhar o mar

sei como te deve doer
mas doía-te mais o fazer

espero-te sempre a sorrir
a inventar um homem dentro
da criança grande

o mar ao pé de ti alfredo
é tão pequenino

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(torreira; companha do marco; 2013)

o meu amigo joão manuel brandão


a ria no rosto

joão manuel brandão

joão manuel brandão

escrevo o teu rosto
sem palavras
vejo-te para que te
saibam e oiçam

não há silêncio na ria

não sei como dizer-te
sinto-te
e semeio-te como és

a beleza da ria
é o retrato do teu rosto

joão manuel brandão

(torreira; cabrita alta)

o meu amigo joão magina


o meu amigo joão magina

do pai o  o nome também

do pai o o nome também

nasce-se na ria
como se em casa
cresce-se numa bateira
como se na rua

a vela por paixão
a ria por estrada
as redes as cabritas
as velas e as regatas

por sobre as águas
amigos tenho
de idades várias
gerações muitas

pais tios avós
todos
mas todos
com a ria no sangue

e o futuro incerto

da família a alegria

da família a alegria

(torreira; marina dos pescadores)

vivelinda bastos


a ria não dá para camaradas

a encomenda

a encomenda

um saco de 20 kg ao ombro
depois de várias horas curvada
na apanha no cirandar na escolha

a maior fábrica do distrito
emprega homens e mulheres
da murtosa e arredores

mariscadores desempregados
legais e clandestinos
ganham na apanha dos bivalves
o amargo pão que levam à boca

a ria não dá para camaradas

e elas deixam a casa e vão
na bateira ao lado do homem
mais dois braços duas pernas

o corpo depressa se desgasta
no rosto os traços fundos
cavados pelo sal o sol a dor

são as  mulheres da ria

o esgar do esforço

o esgar do esforço

(torreira; marina dos pescadores)

o meu amigo ti antónio acabou


uma incógnita sempre o seu olhar

uma incógnita sempre o seu olhar

homem de mar
de poucas falas e muito saber
não lhe sei a idade
conheci-o no mar
na faina das companhas

anda agora apoiado
num cajado improvisado
em passeios curtos
com os olhos presos nas ondas
perdidos de já não

paramos conversamos
dizemos palavras poucas
silêncios que se dizem
nos olhos

família antiga na torreira
gerações muitas
com registo nas companhas
os acabou não acabam
diz

leio-lhes os nomes nos livros
em séculos que lá vão

o ti antónio caminha e parte
eu fico com a memória
e algo mais que aprendi

a vida não é mais que isto
ouvir e arrancar um sorriso
palavras mesmo se poucas
onde só a saudade
enche os olhos de sal

até já ti antónio

uma vida de mar

uma vida de mar

(torreira; 2013)