decisão

o que vêem os olhos de um pescador
disseram-lhe
corta o mal pela raiz
não hesitou
logo ali cortou os pés

por onde andará o peixe?
(torreira; 2012)
com o meu amigo salvador belo, de partida para largar a solheira
decisão

o que vêem os olhos de um pescador
disseram-lhe
corta o mal pela raiz
não hesitou
logo ali cortou os pés

por onde andará o peixe?
(torreira; 2012)
com o meu amigo salvador belo, de partida para largar a solheira
da memória e das palavras

o ti zé rebeço
olho para a foto do ti zé rebeço e lembro-me dos meus tempos de canalha e de quando ia comprar leite a casa dos pais dele, mesmo em frente à dos meus.
e a palavra “canalha”, lembra-me outra que o meu tio avô, césar gorim, costumava usar numa frase que amiúde lhe ouvia – “são uns garotos” – e que ainda ouço na boca do ti zé rebeço.
na murtosa, quando as pessoas diziam “canalha”, referiam-se à “miudagem” e quando se usava a palavra “garoto”, era para classificar aqueles que usando calças se julgavam homens e faltavam à palavra dada, aldrabavam, enfim…….
hoje, se digo “garoto” refiro-me a um miúdo, e se digo “canalha” é insulto e toda a gente o sabe.
voltando ao ti zé rebeço e à memória de um tempo, usando as palavras dessa época e da terra, queria dizer:
– cada vez há menos canalha por aí e garotos, infelizmente, ainda continuam a abundar
(torreira; regata da ria; 2011)
o sorriso

um sorriso
como se um pequeno sol
vindo de dentro da adega
um sorriso
onde se abrigava o tempo
assim como cheguei parti
mas nunca mais
nunca mais o esqueci
o sorriso

(eira pedrinha; condeixa-a-nova)

joão manuel brandão
a arte da cabrita alta

(torreira; 2012)
joão manuel brandão (3)

sofridas letras
esculpidas na carne
escritas no rosto
saber os caminhos
do suor ao oiro
da dor à fortuna
é uma outra ria
onde é sempre
maré vazia
cheia de lamas
apodrecidas
depositadas
nas margens
este é o postal
que não encontrarás
no sítio habitual

(torreira; cabrita alta; 2012)
resistir

o ti américo na manga do reçoeiro, no alador
a manga no alador
corre
o fim do lanço quase
os anos pesam
mais a rede
mais a necessidade
a língua espreita
o esforço
as ganas de continuar
um homem não é
uma máquina
resiste resiste resiste
está vivo muito

conhaque é conhaque, serviço é serviço
(torreira; companha do marco; 2015)
joão manuel brandão (2)

o rosto
a arte
a ria
o pão
sofrido

(torreira; cabrita ata;2012)
ti antónio neto

como sempre, calado a olhar para o longe
escrevo mar memória
cansaço vida morte
conto o tempo
os dias onde já não
sei ti antónio
que já partiu
tarefa pesada esta
de carregar certos dias
como se menos um
recordo então os rostos
dos que partiram
vejo-os sorrir de novo
reinvento o tempo
um tempo de sol e mar
o nosso tempo
revejo-o ti antónio

ao mar ao fundo continuará sempre
(torreira; companha do marco; 2009)
márcia evaristo (arrais da ria)

tem carta de arrais e é camarada do tio quim nas artes da ria.
neste registo está a safar as redes, enquanto no rosto exibe ainda a maquilhagem que os chocos deixam nos rostos de quem os apanha.
são assim as pescadoras da ria

(ria de aveiro; torreira; 2011)
o meu amigo carlos padeiro

começa-se cedo aqui
aulas acabadas
abertas portas e janelas
a ria de novo
aqui onde
de água o chão
e infinito o tecto
os tempos são
de marés e sol
os olhos prendem-se
nas redes
onde peixe mais tarde
não é este o lugar
da palavra
por isso do carlos
escuto o silêncio

férias da escola é na ria
(torrreira; porto de abrigo; 2010)