ao longe a esperança começa
a nascer
o barco lançou o saco
inicia o regresso
trará a rede peixe ?
do mar o incerto pão
nem sempre mata a fome
paga o esforço o suor as gargantas secas
de tanto gritar
não somos dos que desistem
enquanto houver sol e o mar permita
o barco partirá
sempre
em busca do peixe
do pão que o mar dá
o mar rasgou-me no rosto
ondas de areia
na maré vazia
olho-me
no espelho límpido das águas
e vejo-me tal como sou
peixe que deixou o mar e
em terra encalhou
os velhos atravessam o tempo de memória
com mão ágil lágrima grossa regressam
os velhos caminham caranguejos lentos
medusas de horas e anos
os velhos ajoelham calos e varizes
nas pedras gastas do passado
os velhos contam histórias antigas
sabedoria de séculos
os velhos afagam as crianças
macias as mãos grossas magras ossudas
os velhos arrastam-se e caem
cansadas as pernas fechados os olhos
os velhos às vezes já estão mortos
outras morrem ainda mais velhos
os velhos vivem e recordam
e não vivem e recordam ainda
os velhos já foram
por isso são
acordam o sol
põem a mesa
o pão o café o mais se houver
levantam-se
carregam a enxada
limpa da terra de ontem
palmilham caminhos
sacham cavam regam
dobradas as costas
ao peso do sol
e da idade
deitam-se com o sol
que com ele se ergueram
irmãs de ser hoje mais um dia
boa noite estrela
soube
pelo teu filho
você deve conhecer o meu pai
o estrela
a frase continua a martelar-me
a cabeça
que tinhas partido
ninguém sabe para onde
mas todos sabem que não voltas
sabes estrela
a vida é feita de encontros
e desencontros
nós há muito que não nos encontrávamos
vinha e não te via
e pensava
está para o mar
era normal
e vai continuar a ser normal
porque para mim estrela
tu estás no mar
e é por isso que não nos encontramos
um abraço do teu amigo
cravo
nunca lhe soube o nome
era
o nosso vizinho
sempre em torno
das suas duas paixões e preocupações
o carro e a esposa
era vê-lo
nas tarde soalheiras de inverno
capô aberto a dar de respirar ao motor
a sacudir os tapetes
a pôr o motor a trabalhar e
a andar dez escassos metros com o carro
era vê-los
sentados ao sol manso de inverno
abrigados do vento frio
pelas paredes de vidro e chapa do carro
ele a ler o jornal
ela a fazer renda
nunca lhe soube o nome
conheci-lhe porém um pouco da vida
mais importante que o nome
nas conversas parcas das horas mortas
do intervalo de almoço
gostava de os ver a descer a calçada
a caminho da bica
depois de almoço ou do jantar
se o tempo ajudava
nunca lhe soube o nome
mas nunca lhe esquecerei o rosto
a educação que já não se usa
o dobrar ligeiro sem ser servil
da coluna
enquanto levava a mão à cabeça
para solevar o boné
o cumprimento sempre pronto
coisas de aldeia perdida na cidade
nunca lhe soube o nome
e agora
mesmo que o viesse a saber
já não poderia chamar por ele
será sempre
o nosso vizinho
nota – a foto não é do “nosso vizinho” é de todos os vizinhos