o lento caminhar dos dedos


o safar do salvador

 

sabes tu
que pensas tudo saber
o que sabem as mãos
e o que sabem fazer?

lentas, hábeis
acariciam as redes
safam-nas de algas
limpam-nas de limo
sem pressas de urbano

sabes tu
que tudo sabes
que tudo tem o seu tempo
e todo o tempo cabe
em duas mãos de trabalho
em duas mãos que cantam
odes à ria
erguendo no tempo
um templo
onde orar é outra forma
de pescar?

sabias tu?

as redes da solheira


 

 

salvador belo

 

admiro sempre
as mãos
a forma minuciosa
e terna
como tratam as coisas
mãos de trabalho
mãos de artista
mãos pacientes

com agulha
cosem as malhas
unem os fios
atam nós
fecham caminhos
abrem o haver
peixe afogado
dentro de água

meticulosamente
sem tempo de tempo de tempo
caminham percursos velhos
saberes antigos
as mãos
dos pescadores

(torreira – salvador belo)

dos moliceiros


outros ...

 

estão ali
deitados
à babugem da maré
no lodo do seco
onde antes areia
água límpida

aguardam
o acordar
o até sempre
a regata
o apodrecimento

a pátria dos moliceiros
mátria não é
cada vez mais nem de carpideira
estatuto terá

estudemos pois
como é nossa tradição
os que vão morrer
a quem só falta o circo
e césar para saudar

(torreira- monte branco)

 

carlos padeiro – a ria por paixão


carlos padeiro

desde tenra idade que o carlos começou a ir para a ria com o tio.

aos 9 anos já ajudava a colher e a safar as redes da “solheira”.

há uns anos que o tenho visto na marina ao lado do tio, desempenhando todas as tarefas que a arte de tresmalho “solheira”, do choco e do linguado, exigem. sempre bem disposto e com um sorriso nos lábios.

aos 15 anos, nas férias – o carlos passou para o 7º ano de escolaridade – o carlos é um homem de trabalho ao lado do tio. fá-lo por gosto, não por obrigação, nem a troco de remuneração.

a ria de aveiro exerce sobre os miúdos uma tal atracção que a preocupação dos pais é que não deixem os estudos, porque a ria é que eles não trocam por nada.

na torreira nasce-se pescador.

(murtosa – torreira – marina dos pescadores)

zé rebeço ou a recriação da descarga do moliço


em 2009 surpreendi o sr. josé rebeço, meu vizinho dos tempos de criança, a descarregar uma barcada no cais do bico.

depois de muitos anos emigrado no canadá, de regresso definitivo à murtosa, resolveu reviver os seus tempos de juventude indo à “apanha do moliço”.

só que como já não há moliço, foi apanhar uma alga a que os pescadores chamam “cabelo de cão” e, sozinho, com um pequeno de motor fixo na beirada do moliceiro lá foi.

apanhei-o no acto da descarga. é esse registo que aqui fica.

o atracar

a forquilha

o engaço e a toste

o esforço com o engaço no fazer do monte

o fazer do monte

o moliço (cabelo de cão, que moliço já não há)

uma memória breve do meu tio césar que tanto me marcou:

“dos moliceiros e do moliço, algumas regras e rituais

na ria de aveiro existem algumas ilhas, zonas que se mantêm secas durante todo o ano, dentre estas destacam-se três na zona mais norte: monte farinha, amoroso e testada.

a riqueza das ilhas residia no junco que crescia no seco e no moliço que crescia debaixo de água. na ilha de monte farinha chegou a haver gado, de que se destacava a criação de cavalos.

a ilha do amoroso tinha três sócios, um dos quais era meu tio avô, motivo pelo qual o acompanhei muitas vezes nas viagens que fazia à ilha, para reparações nos canais e manutenção da casa que aí existia e tinha um poço e uma figueira.

para poderem explorar o moliço das zonas submersas da ilha, os proprietários pagavam à capitania uma licença especial, mas só podia apanhar moliço na ilha quem tivesse autorização dos donos. não havia zonas exclusivas para cada barco, toda a zona submersa podia ser explorada.

ao domingo de manhã, depois da missa, vestindo o “fato de ver a deus”, os moliceiros iam a casa do meu tio, responsável pela contabilidade do amoroso, que os aguardava, à porta de casa, com uma garrafa de vinho doce e um cálice, enquanto nas mãos segurava um pequeno saco de pano.

cada moliceiro dirigia-se ao meu tio e dizia: sr. césar esta semana foram “tantas” barcadas de moliço, a “tanto” cada uma dá…. e punham o dinheiro no saco, bebiam um cálice e iam até casa.

era assim até à hora de almoço: encontros de homens de palavra.

foi com estes princípios que fui criado e se tenho, como todos temos, pais biológicos, tenho na ria uma outra família que me educou e de mim fez o homem que sou.”

eu no bico – meados da década de 50 do século passado
(fotografia tirada pelo meu pai, domingos josé cravo)

regata moliceiros – bico – 8 de agosto – 15 horas


eu vou

http://www.cm-murtosa.pt//Templates/GenericDetails.aspx?id_object=4863&divName=876&id_class=876

no dia 8 de agosto pelas 15horas
no bico, na murtosa
vão desfilar em regata
no sentido nascente/poente e regresso
de manhã costuma haver umas tasquinhas com petiscos
uma tele 70/300 ou 200 e uma 18/55 fazem jeito

estou lá logo pela manhã

ria de aveiro: passado e futuro


 


o cisne e o pato

 

o moliceiro resiste ao passar do tempo, pela beleza, pela paixão daqueles que em tempo o utilizaram como ferramenta de trabalho.
resiste nas regatas, inteiro, amputado da vela nas viagens promovidas pelo turismo.
resiste, até quando?
entretanto a utilização da ria como pista de vela, de kyte surf, de surf, de vela; a ria adquire nova face.
neste momento breve, o que vai deixar de ser o cisne da ria, beleza primordial e eterna, cruza-se com um pato que prenuncia o futuro.
até quando cisne?
(murtosa – torreira – canal de ovar – em frente à bestida)
o sexo fraco?

o sexo fraco?


KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

torreira; 2007

uma das artes de pesca da ria de aveiro é a arte do berbigão.

o aparelho é a “cabrita” que pode ser “alta” ou “baixa” consoante o tamanho do cabo, tendo em conta se a apanha é feita em zonas de profundidade ou em “cabeços”.

nesta arte o trabalho, para ser rentável, é repartido entre marido e mulher.

a apanha depende de três condicionantes:

1. da permissão para a apanha
2. do tipo de licença do pescador
3. da encomenda

cada saco leva 20 kg de berbigão, por aqui se vê a força do sexo fraco da ria.

KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

torreira; 2007

(falaremos dela com mais pormenor técnico e fotos a seu tempo)

memórias do moliceiro


o barco moliceiro, princesa da ria

de todos os barcos que sulcaram, ou sulcam ainda, a ria o moliceiro é sem dúvida o mais belo. atrever-me-ia a dizer que é em simultâneo uma obra de arte e um instrumento de trabalho.

perfeitamente adaptado ao trabalho na ria, em que a as águas de pouca profundidade são predominantes, o moliceiro é um barco de fundo chato com um pontal de 40 a 45cm, navegando, quando carregado, com os bordos ao nível da água.

o facto de o pontal (distância entre o convés/bordo e o fundo) ser tão pequeno, facilita o trabalho dos moliceiros que, para arrancar o moliço do fundo, arrastavam os ancinhos os quais, depois de carregados tinham de ser erguidos e despejado o moliço dentro do barco. quanto menor o pontal, menor o esforço despendido.

se na sua construção de base se encontra uma adaptação ao meio onde se move, e ao fim a que se destina, há porém factores que nada tem de utilitário: a forma da bica da proa e os painéis pintados à proa e à popa ou ré.

o que é que terá levado a que o moliceiro tenha uma bica da proa tão curva? tão semelhante à da barca de mar (da arte-xávega)? não há qualquer finalidade utilitária nestes pormenores, são puros adornos.

com um comprimento entre 14,50m e 15m (Drª Ana Maria Lopes – Moliceiros : A Memória da Ria) e uma boca entre os 2,50m e os 2,60m, o moliceiro é um barco de linhas esbeltas e extremamente elegantes: uma jovem princesa que se passeava pela ria.

é esse o seu encanto, a causa da paixão de todos os que nele trabalharam, passearam ou meramente contemplaram. é impossível ficar indiferente a uma princesa. por amor a ela às regatas todos se entregam, sem contrapartidas que não a emoção.

os moliceiros e apanha do moliço

de acordo com “ Relatório Oficial do Regulamento da Ria”, de que é co-autor o então capitão-tenente jayme affreixo, publicado em 1912, os números relativos à apanha de moliço eram os seguintes:

1.883 …. 1.342 barcos

1889 ….  1.749 barcos ——     957 moliceiros ——-     2.687 lavradores

1911 …. . 1.054 barcos —–      875 moliceiros ——-     1.633 lavradores

“A estatística de 1.883 dá 158:000$000 réis para o valor anual da colheita ao preço médio de 1$250 réis a barcada.

o cálculo do seu rendimento pode fazer-se de acordo com o seguinte modo:

“Existem 1.500 barcos (aos 1.054 registado na capitania acrescenta 400 a 500 não registados), cada um dos quais, nos 3 meses de Agosto, Setembro e Outubro, à razão de uma barcada por dia de trabalho, colhe seguramente 70 barcadas, cujo preço médio não é inferior a 1.$800 réis; e, no resto ano, à razão de uma barcada por 4 ou 5 dias, colhe 30 barcadas ao preço médio de 4$000 réis. Igualando porém este preço ao anterior, para desconto de barcos de lavradores que nesta segunda época não exercem a apanha temos: 1.500 barcos, com 100 cargas cada um, a 1$800 réis, ou seja um rendimento anual de 2.700$000 réis”.

ainda de acordo com o mesmo relatório:

“ Em 1907 e 1908 o rendimento total da produção marinha da ria de Aveiro é:

Peixe ………. ………………………………….…54.000$000 réis

Peixe de viveiros ………………………….……3.000$000 réis

Algas (moliço) valor superior a …….. 270.000$000 réis

Juncos, valo superior a ………………..   73.000$000 réis

Total …………………………………….…… 400.000$000 réis”

por aqui se vê o valor que representava o moliço na riqueza produzida pela ria.

(torreira; 2008)