postais da ria (304)

postais da ria (304)


amanhã é domingo
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arte de velejar

hoje fui ao mercado
comprar cerejas
boas e mais baratas
 
saboreio-as com prazer
guardo os pés
para fazer chá
 
mirtilos e iogurtes
no hiper em promoção
 
quando o vento sopra
de norte
é preciso ter arte para
velejar
 
pendurei o teu nome
com duas molas
na corda onde não há roupa
 
amanhã é domingo
e já escrevi muito
fico por aqui
 
se disseres que isto
não é nada
podes ter a certeza
 
que tens razão
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arte de velejar

 
(torreira; regata de bateiras à vela; s. paio; 2013)
crónicas da xávega (309)

crónicas da xávega (309)


devaneio
 
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nua de bruços
corpo aberto em flor
 
esperas um deus
fugido do olimpo
eternizado numa estátua
de mármore na grécia
que visitaste um dia
 
nua de bruços
corpo aberto em flor
 
beijo-te a nuca
afago-te o crâneo
demoram-se no pescoço
os lábios
iniciam o caminho
que pela coluna
os levará até onde
um breve sulco
 
recomeço pelos pés
e subo lentamente
sinto nas pernas
o eriçar de pelos ínfimos
 
chego enfim à nascente
de ti
saboreio-te devagar
 
súbito
o corpo domina-te
estremece acende-se
 
então viras-te
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(torreira; 2013)
crónicas da xávega (308)

crónicas da xávega (308)


o poema
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torreira; o recolher do saco; 2016 – irá a zorro na zorra para ser seco

 
se fossem música
estas palavras
seriam poema
 
é do poeta escrever
música com palavras
 
diz o que lês
como o sentes
ouve-te
 
porque é para ser dito
que foi escrito
como se música outra
 
ou
não é ainda o poema
 

postais da ria (303)


outro eu
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todos os dias
perco memória
todos os dias
me reaprendo
 
palavra a palavra
recupero do silêncio
as memórias idas
 
e o ter esquecido
é um outro eu
o eu aqui agora
 
como se outra casa
outra porta
para outro mundo
 
(torreira; safar redes; 2018)