crónicas da xávega (296)


a primeira flor
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a minha amiga cacilda, mulher do mar da torreira

 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
abrem-se no rosto trilhos
salgados de tanto mar
perdem-se no longe os olhos
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
falarei sempre do sonho
quando no infinito os olhos
inventarem um ser diferente
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
amanhã minha neta
que foste do meu sangue
a primeira mulher
não terás o rosto assim
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
mas são estes os rostos
que eu quero que lembres
e faças teus porque meus
deste ter sido aqui mais um
 
(avô já sou mulher e
eu não quero)
 
mas
hoje é o teu primeiro dia
e esta a flor que te ofereço
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a minha amiga cacilda, mulher do mar da torreira

 
(torreira; 2013)

mestre zé rito_torreira


0 ahcravo_DSC_4343 moliceiro ze rito
nasceu em 1956, filho de pescadores e caçadores que se tornaram moliceiros, zé rito “nasceu no moliço”, fez-se construtor naval e é pescador.
 
de família originária da murtosa é na torreira que vive e se torna o primeiro construtor naval da terra.
 
homem da ria e dos moliceiros sempre participou nas regatas de moliceiros, bateiras e chinchorros. tirando alguns azares ficou sempre nas primeiras posições em todas as regatas, muitas delas no primeiro lugar.
 
o mais a conversa gravada o diz.

crónicas da xávega (294)


pedras
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a manga do reçoeiro a passar no alador

 
a meio do caminho
surgem muitas pedras
no meio do caminho
 
difícil saltar por cima
das pedras
mudar de caminho
não será fácil
 
mas
a meio do caminho
ainda falta outro meio
 
mude-se de caminho
as pedras são o que são
pedras e nada mais
 
(torreira; 2016)