postais da ria (305)

postais da ria (305)


o que é cravo?
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torreira; safar redes; porto de abrigo; 2013

não escrevo o teu nome
falo de ti
como se da ria do mar
memória de um tempo
 
agora que o retornar
se aproxima
são mais fortes os gestos
os silêncios
as bateiras
as cabritas as redes
a ausência
 
imagino-te aqui
onde estás sempre
sem nunca teres estado
mas és tantos quantas
as imagens de ti
 
não escrevo o teu nome
porque não o podes ouvir
para me responderes
como era costume
 
o que é cravo?
os moliceiros têm vela (360)

os moliceiros têm vela (360)


um povo que faz
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regata da ria; 2010

pequena a terra
para tão grande povo
um povo que regressa
para ver voar
o sonho sonhado longe
um povo que sonha
sem ter partido
e é inteiro aqui onde
um povo que resiste
ser um barco tudo isto
é ser moliceiro
vela içada sobrevoar
a ria como se ave
bandeira
de um povo que faz
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regata da ria; 2010

postais da ria (304)

postais da ria (304)


amanhã é domingo
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arte de velejar

hoje fui ao mercado
comprar cerejas
boas e mais baratas
 
saboreio-as com prazer
guardo os pés
para fazer chá
 
mirtilos e iogurtes
no hiper em promoção
 
quando o vento sopra
de norte
é preciso ter arte para
velejar
 
pendurei o teu nome
com duas molas
na corda onde não há roupa
 
amanhã é domingo
e já escrevi muito
fico por aqui
 
se disseres que isto
não é nada
podes ter a certeza
 
que tens razão
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arte de velejar

 
(torreira; regata de bateiras à vela; s. paio; 2013)
crónicas da xávega (309)

crónicas da xávega (309)


devaneio
 
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nua de bruços
corpo aberto em flor
 
esperas um deus
fugido do olimpo
eternizado numa estátua
de mármore na grécia
que visitaste um dia
 
nua de bruços
corpo aberto em flor
 
beijo-te a nuca
afago-te o crâneo
demoram-se no pescoço
os lábios
iniciam o caminho
que pela coluna
os levará até onde
um breve sulco
 
recomeço pelos pés
e subo lentamente
sinto nas pernas
o eriçar de pelos ínfimos
 
chego enfim à nascente
de ti
saboreio-te devagar
 
súbito
o corpo domina-te
estremece acende-se
 
então viras-te
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(torreira; 2013)
crónicas da xávega (308)

crónicas da xávega (308)


o poema
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torreira; o recolher do saco; 2016 – irá a zorro na zorra para ser seco

 
se fossem música
estas palavras
seriam poema
 
é do poeta escrever
música com palavras
 
diz o que lês
como o sentes
ouve-te
 
porque é para ser dito
que foi escrito
como se música outra
 
ou
não é ainda o poema
 

postais da ria (303)


outro eu
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todos os dias
perco memória
todos os dias
me reaprendo
 
palavra a palavra
recupero do silêncio
as memórias idas
 
e o ter esquecido
é um outro eu
o eu aqui agora
 
como se outra casa
outra porta
para outro mundo
 
(torreira; safar redes; 2018)