apanhei rente ao mar
três seixos rolados
de cores diferentes
como diferente é tudo
entrechocando-se na mão
produzem um som áspero
um som de memória perdida
encostados ao ouvido
nada dizem
são simples pedras
não búzios
também eu
trago no corpo o mar
o mar que ninguém ouve
cansado
sobre as pernas
cruzadas na areia
sentou-se
entre sol e mar
pendurou o olhar
perdido
de ali estar
por momentos
incontáveis
quedou-se ausente
absorto
a decisão
tomara-a há muito
só não sabia
o quando
estendeu o braço
agarrou o sol
está frio
tenho os dedos gelados
entanto ardo por dentro
um fogo intenso
que se consome no acto
de escrever estas palavras
poucas
que nada dizem
como sempre
mas que me embrulham
e me aconchegam
nestas noites de estar
só
lembro os dias a luta
a indecisão de
o não saber como
a aceitação a revolta
as divisões a impotência
as armas e os barões
gordos e guardados
protegidos afilhados
um tempo gordo bolorento
lembro os dias da decisão
das armas roubadas aos barões
dos canhões à praça virados
da festa da liberdade
tempo de cravos na mão
foram-se as armas
ficaram os barões e os afilhados
livres as palavras e o engano
livre tu para recusar e seres
ainda não é pleno o nosso tempo
sê grato às portas que te abrem
e às que te fecham também
ser de todos é não ser de ninguém
de ti primeiro que todos quiseste ser
fizeste-te dizendo não calando
disseste presente ao mau tempo
sê grato às portas que se fecham
e às que te abrem és tu em todas
sê grato à diferença
como o vento despenteia as ondas
do agostinho trabalhito (canhoto) muito haveria que contar, mas fico-me pelos últimos anos.
trabalhou na companha do falecido zé murta e trabalha agora na companha do marco. a corda ao pescoço serve para atar a manga antes do calão e, assim, impedir que alador “coma” e quebre o calão.
pelo caminho lavou pratos num restaurante e dedica-se à pesca à cana (ainda de bambu) para apanhar peixe mais “grosso” que aumente a dispensa da família ou para vender aos restaurantes.
dos muitos irmãos que tem não posso deixar de recordar dois já falecidos: o zé trabalhito e ti antónio trabalhito, ambos homens de mar, ambos homens da torreira
espero
como se viesses
olhando o longe
de não estares aqui
para além de mim
para além de tudo
os olhos prendem-se
no vento
procuram-te
tu sabes
esperar não é assim
tão difícil
quando nos sentamos
no vento
e é de mar
o solo que pisamos