crónicas da xávega (503)


caminho por aí
face aberta ao vento
olhos abertos ao mundo
coração em forma de gente

ásperos são os caminhos
a limpidez de que falava
sophia
é porto de abrigo
para fugir deste cozido
à portuguesa
onde abunda a carne de porco
o arroto
e o cheiro a vinho pútrido

tirem-me daqui
alguém disse
mas ninguém nos pode tirar
de nós

(o arribar da mão de barca: torreira; 2009)

RUI PIRES CABRAL [ Chacim, 1967 ]


poesiayotrasletras's avatarPOESíA Y OTRAS LETRAS

Créditos: https://ionline.sapo.pt

No livro de Rui Pires Cabral, Manual do Condutor de Máquinas Sombrias, Averno, Lisboa, 2018, a poesia torna-se imagem e vice-versa, devendo ser lida como foco de uma ordem discursiva (não apenas uma fotografia) que se torna imprecisa. A construção da situação que Pires Cabral oferece aos seus leitores é uma lógica sem vencedores nem vencidos. As imagens e as palavras fluem obliquamente ao mundano, experimentadas como entidades da subjetividade e, ao final do jogo, oferecem uma aniquilação massiva a toda estranheza e timidez vacilante no mundo dos simulacros.

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