postais da ria (376)


amizade

(para o mirco bompignano)

torreira; regata de bateiras à vela; s. paio; 2010
 
 não há mar que nos aparte
 nem terra que barreira seja
 
 caminhei por sobre a ria
 ao encontro do mar  
 e o inverso que caminho
 também o era
 
 não há mar que nos aparte
 nem terra que barreira seja
 
 o sentir vai e vem por onde
 caminhar pode
 sem saber de outro destino
 que o encontro  
 
 não há mar que nos aparte
 nem terra que barreira seja
 
 apenas uma palavra percorre
 estes dias e é amizade
 
 

os moliceiros têm vela (431)


português emigrante

ti abílio; regata do bico; 2019
 
 partiram de bolsos vazios
 e o país no coração
 
 sonhavam uma vida melhor
 uma casa a velhice diversa
  
 foram dos primeiros e  
 voltaram
 e no voltarem foram
 os últimos
  
 filhos e netos semearam
 que outras raízes criaram
  
 mais que uma bandeira
 são um povo
 orgulhoso das suas origens
  
 é uma honra ter entre eles
 tantos amigos 

crónicas da xávega (365)


sentou-se

costa de lavos; 2017
 
gostava muito de se sentar
e ficar assim a olhar o mar
 
um livro
poisado nos braços
os olhos pendurados no horizonte
 
como era imensa a janela
incomensurável a casa 

(nota: reparem na “ferramenta” de aço inox, utilizada para suportar a manga, a conduzir e impedir que roce na areia. na praia da torreira e na de mira, conhecia a técnica do cruzamento dos bordões/estacadões que se fazia para produzir este efeito. inovação meus caros, na xávega inova-se, é bom que se inove porque é sinal de que continua. será que algum dia, alguém ao ver isto vai dizer que já não é xávega? sei lá?)

a beleza do sal (110)


Recriação da safra à moda antiga” – foto 20

dilema

armazéns de lavos; salina do corredor da cobra; agosto 2020
 quantos és  
 que te não sabes
 
 só és muito
 e tão pouco te sentes
 
 a casa fizeste à tua medida
 pequena e enorme dizes
 tua não é nunca o foi
 
 por entre as paredes
 a solidão cresce
 e és tu em tudo
 
 habitas o dilema
 
 como o sal  
 o tempo escorre