continuas entre nós antónio
hoje a companha não trabalhou
o olá sampaio voltou a não ir
ao mar
faltas tu
o barco fica em terra
a mesma onde tu agora
continuas aqui antónio
(alberto estrela; torreira; 2006)
boa noite estrela soube pelo teu filho você deve conhecer o meu pai o estrela a frase continua a martelar-me a cabeça que tinhas partido ninguém sabe para onde mas todos sabem que não voltas sabes estrela a vida é feita de encontros e desencontros nós há muito que não nos encontrávamos vinha e não te via e pensava está para o mar era normal e vai continuar a ser normal porque para mim estrela tu estás no mar e é por isso que não nos encontramos um abraço do teu amigo cravo
(muito resumidamente)
quando em 1751, segundo a prof. inês amorim, a xávega chega a portugal, mais precisamente à costa do furadouro e torreira, já os pescadores da ria iam ao mar, à sardinha, com grandes chinchorros.
o fechamento da barra da ria, só reaberta em 1808, fez com que os pescadores da ria levassem as suas artes para o mar e nele lavrassem a sardinha que abundava.
com o aparecimento das traineiras e, mais tarde, com a utilização do cerco americano na pesca da sardinha, é feita uma “limpeza” na costa e as companhas passam por momentos de crise e reconfiguração. muitas desaparecem.
era então comum, e foi-o durante muito tempo, uma retribuição em espécie (peixe) aos pescadores – a caldeirada, quinhão, rapola, teca (no sul).
hoje em dia, nas companhas que restam, já não é a sardinha a fonte de riqueza, mas sim o carapau. a retribuição em espécie, como regra, desapareceu e o normal é os pescadores levarem para casa, para o almoço ou a janta, peixe de pouco valor comercial.
neste caso, o dono da companha, josé monteiro, resolveu distribuir uma caixa de carapau por todos os membros da companha.
assim, fizeram-se 18 montes, que se foram acertando até ficarem praticamente todos iguais.
(praia de mira, companha do zé monteiro; 2009)
hoje fui ver os meus
cravos que já foram
sob cravos vivazes
vermelhos de sangue
um cravo olhou-os
todos
e foi mais
o barco vai partir as gaivotas barcos de outros ares esperam peixe na rede sobras a rolar nas ondas o barco vai partir enfrentar as ondas correr atrás do vento voar atrás das nuvens planar sobre as águas sorte se encontrar um cardume perdido e o transformar em refeição o barco vai partir partimos com ele ? só para ver como a vida no mar é dura
(torreira; anos 90)
o óscar miguel ainda ia ao mar. hoje nada mais resta que a memória fotográfica. o desleixo com o património e a sua preservação, fizeram com que do último barco de mar que trabalhou com tracção animal nada mais reste
imagem retirada de http:/bloguite.com
(o macho lusitano)
o macho lusitano, sangue na guelra,
latino. conhece do engate a técnica.
malandro no chapéu, no bigode fino,
no olhar castigador. sem jeito investe.
a fêmea rodeia, cerca, encurrala. o
cigarro portuguesmente crava: o pretexto
para o diálogo, para os olhos nos olhos.
o torso musculado exibe. promessas de
cama no olhar cúmplice de malícia. o
macho lusitano, sangue na guelra, latino.
gingão nas ancas, marinheiro nas pernas,
conhece do engate a técnica …..
e falha
desde tenra idade que o carlos começou a ir para a ria com o tio.
aos 9 anos já ajudava a colher e a safar as redes da “solheira”.
há uns anos que o tenho visto na marina ao lado do tio, desempenhando todas as tarefas que a arte de tresmalho “solheira”, do choco e do linguado, exigem. sempre bem disposto e com um sorriso nos lábios.
aos 15 anos, nas férias – o carlos passou para o 7º ano de escolaridade – o carlos é um homem de trabalho ao lado do tio. fá-lo por gosto, não por obrigação, nem a troco de remuneração.
a ria de aveiro exerce sobre os miúdos uma tal atracção que a preocupação dos pais é que não deixem os estudos, porque a ria é que eles não trocam por nada.
na torreira nasce-se pescador.
(murtosa – torreira – marina dos pescadores)
inês amorim é professora catedrática da faculdade de letras da universidade do porto. natural de aveiro, doutorou-se em 1996 com a tese “aveiro e a sua provedoria no séc. XVIII (1690-1814).
investigadora profícua dos fundos documentais tem produzido, ao longo dos anos, um grande número de publicações de que destaco as sobre xávega, que considero das mais bem suportadas e estruturadas de quantas conheço.
aqui aparecerão todas as que consegui arranjar, mesmo pedindo à autora que foi de extrema solicitude.
o artigo que agora se apresenta, foi apresentado no VII congreso de la sociedad española de historia de las ciencias y de las técnicas, em pontevedra entre 14 e 18 de setembro de 1999.
não existindo em suporte informático foi-me enviado em fotocópias pela prof. inês amorim e a capa por inês pelleon, da associação.
o texto é fundamental para quem se preocupa com esta temática, a qualidade da sua visualização poderá não ser a melhor, atendendo aos procedimentos necessários para se chegar a um pdf.