batalha naval
almirante
vem de submarino
afunda
navio de um cano
e
naufraga
(bateiras a descansar; marina dos pescadores; torreira; 2013)
NÃO
assim em maiúsculos inusuais
como um grito de revolta
pedrada nas janelas dos dias
NÃO
assim em maiúsculos inusuais
como um grito de revolta
pedrada nas janelas dos dias
NÃO
posso calar tudo o que dentro
de mim ferve e se impõe
contra o silêncio a prepotência
NÃO
o ter armas poder dinheiro NÃO
tem força de lei mas sim
marginais loucos engravatados
NÃO
aceito a conversão de dólares
em crianças assassinadas
o lucro cego pago com sangue
NÃO
chamem-me perigoso terrorista
escrevam o meu nome
a vermelho mas ESCREVAM que
NÃO me verguei nunca
NÃO
ao GENOCÍDIO em GAZA
ao governo de netanyahu
NÃO à GUERRA SIM à PAZ
PALESTINA LIVRE
(regata de bateiras à vela; s. paio; torreira; 2017)
t r ê s h o r a s
tinha vinte anos
chamava-se sayfollat musallet
tinha ido visitar a família
à cisjordânia era palestiniano
foi baleado por colonos israelitas
mas não bastava
chamada a ambulância
os colonos cercaram-no durante
t r ê s h o r a s
impediram que a ambulância
o socorresse
assassinaram-no duas vezes
a primeira por ódio
a segunda por sadismo
colonos israelitas
c o l o n o s i s r a e l i t a s
na cisjordânia
não em gaza
t r ê s h o r a s
(torreira; 2013)
em português nos entendemos
língua velha que não raiz
árvore que a cada dia floresce
português falamos sotaques
vários nos separam e unem
na diversidade somos palavras
abraçamo-nos sem faca na
manga quantas cores quantas
origens se fundem em nós
não somos os herdeiros de um ontem
que derrotámos mas construtores do futuro
sem preconceitos e sem vergonhas
descobriram agora que os lusíadas
a lírica foram escritos numa língua esquizofrénica
envergonhada diz luiz se assim foi
curvo-me perante estes libertadores
e em português me ergo desavergonhadamente
(bateira a arribar da faina; torreira; 2015)