crónicas da xávega (621)


o til

o til é
um sinal gráfico
que serve para nasalar
duas vogais
só duas

como temos duas narinas
seja um para cada uma
o til é democrático

o til de que mais gosto
é o do o'neil
até porque não é só um
são variações em til

há uma palavra
homófona
de o til
que é útil

mas essa não tem til
tem acento agudo
para abrir o u

(xávega; o bordão; arribar da manga; torreira; 2016)

crónicas da xávega (617)


imagina que não estás aqui
que este não é teu tempo
não vês não ouves não lês

imagina e escreve
um poema de amor
uma história ligeira

pedi-te que imaginasses
porque a realidade
é inimaginável

experimenta
atirar palavras contra o real
e imagina que algo muda

imagina e escreve
um poema de palavras duras
porque duros são estes dias

estás vivo e não precisas
de imaginar basta seres

(xávega; o arribar da manga; praia da leirosa; 2019)

crónicas da xávega (345)


descrente

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costa de lavos; 2017

 
escrevo hoje o tempo
com o tempo que tenho
não será muito digo
mas é o meu tempo
 
no caminho dos dias
é nos outros que o vejo
em mim que o sinto
 
ao tempo que foi e
ontem ainda
 
gasto o tempo até ao esqueleto
branco do ínfimo segundo
 
não creio na reciclagem dos dias
também nisso a minha descrença
 

crónicas da xávega (335)


eu queria

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xávega; marga; costa de lavos; 2019

 
eu queria escrever
hoje
algo sobre o amor
 
eu que tanto amei
hoje
não consigo escrever
porque não
amo
 
hoje
não me basta a memória
de ter sido
apetecia-me ser
 
escrever-te a ti
o que não consigo
escrever hoje
 
porque hoje
hoje
nada sinto