os moliceiros têm vela (583)


quando há festa na aldeia
por vezes aparece um ser
andrajoso com folhas A quatro
que estende a quem passa

há dias lá estava de novo
cruzei-me com ele na rua
e como o meu amigo álvaro
tirei uma moeda do bolso
não das maiores e ofereci-lha

que não não queria dinheiro
estendeu-me uma folha
cheia de rostos e quadrados
indicou-me um deles e disse
quero uma cruz neste

tá bem tá disse-lhe eu
uma moeda ainda ia
agora quadrados e cruzes
só nas palavras cruzadas
ou no recato de uma cabine

por mera curiosidade perguntei-lhe
o que fazia e como se chamava
ao que me respondeu cabeça baixa
faço asneiras apelido esquerdatriste

(moliceiros; regata da ria; torreira; 2013)

os moliceiros têm vela (575)


hoje é dia de s. paio

os cisnes da ria poisam e voam
sobre a lisura das águas

livres de gabinetes e cálculos
de enganos elaborados
por mandantes e candidatos

é hora de vender gato por lebre
é tempo há muito tempo
de semear ilusões e colher pelouros

os moliceiros são o colorido da ria
onde negros corvos
fazem falsas promessas colhem votos
cargos futuros euros

os cisnes da ria livres e belos
nunca serão património nacional
sequer da humanidade nunca

os cisnes da ria são moliceiros inteiros
homens e barcos fundidos
na herança na tradição e no sonho

os cisnes da ria poisam e voam
sobre a lisura das águas
ignoram o cinismo são emblema

(regata de moliceiros; s. paio; torreira; 2017)