“palavras moliceiras” de ahcravo gorim
em memória dos meus amigos ti zé rebeço, ti abílio carteirista e diamantino dias
fotografias e poema de ahcravo gorim, áudio gerado por inteligência artificial
edição de ahcravo gorim
“palavras moliceiras” de ahcravo gorim
em memória dos meus amigos ti zé rebeço, ti abílio carteirista e diamantino dias
fotografias e poema de ahcravo gorim, áudio gerado por inteligência artificial
edição de ahcravo gorim
um moliceiro para diamantino dias
em 2012 a regata da ria foi cancelada, quase de véspera, e alguns moliceiros foram, em protesto, da torreira a aveiro com bandeira negra hasteada e os painéis cobertos de plástico da mesma cor.
foi de diamantino dias a ideia, que concretizou, de a regata da ria partir da torreira e proporcionar o espectáculo a que tantos hoje assistem e/ou fotografam ao longo do percurso, como tinha imaginado.
justo seria que quem tem a responsabilidade, directa ou indirecta, da realização da regata da ria, decidisse que em 2026 os moliceiros hasteassem bandeira negra em memória de diamantino dias e que o seu nome fosse relembrado na cerimónia de atribuição de distinções.
seria mais justo se diamantino dias assistisse, como até há uns anos, à chegada e ao concurso de painéis. seria justo mas diamantino dias terminou dia 15 de fevereiro a sua regata.
até breve amigo
(moliceiro; a regata da ria que não chegou a haver; 2012)
no Notícias de Aveiro
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/moliceiros-tempo-para-morrer/
“a pátria onde Camões morreu de fomee onde todos enchem a barriga de Camões! “
Almada Negreiros
Duas histórias
Era miúdo quando o conheci e enquanto o avô construía um moliceiro ele copiava os moldes e fazia miniaturas e ajudava no que podia. Aos treze anos, como timoneiro de um moliceiro com uma tripulação jovem, quase ganhou a regata da ria. Quando teve idade para começar a trabalhar, foi na ria que fez vida. Quando pôde, junto com o avô construiu o seu moliceiro.
Entre as artes da ria e as campanhas no alto mar foi ganhando a vida, nunca perdendo uma regata de moliceiros. Até que um dia comprou o seu.
Dois jovens, dois torrecos, duas apostas no futuro do moliceiro.
O primeiro, em comentário a uma publicação que fiz no facebook, escreveu:
“Os moliceiros só sao lembrados nos dias de regatas e dois ou três dias depois de cada uma delas.
É pena mas é o que temos
Um abraço a si senhor cravo e muita saúde”
Por essa altura, antes ou depois, o moliceiro foi posto à venda.
O segundo, quando os meios de comunicação noticiaram que “ o Barco Moliceiro é Património da Humanidade”, deitou o moliceiro à ria, içou vela, festejou e divulgou um vídeo em que a alegria era transbordante.
Dois jovens, dois sonhos que não merecem ser enganados e deixados por conta própria, a alimentar o sonho com o suor de cada dia, enquanto nas varandas do poder se enche o peito e os negócios as gavetas.
Não merecem ser enganados, mas apoiados e incentivados, eles e todos os que como eles, seja qual for a idade, amam o moliceiro e a ria aberta – a única onde há moliceiros.
Isto só para citar dois casos, que mais haverá.
“Barco Moliceiro: Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro “
Vem isto a propósito da candidatura apresentada pela CIRA ao Instituto do Património Cultural e mais recentemente à UNESCO, do projecto “Barco Moliceiro: Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro “ e que ficou inscrita no Património Cultural Imaterial Nacional e da Humanidade.
Leia-se bem: “Património Imaterial”. O moliceiro é imaterial? Quem acha que, a partir da aprovação do projecto pela UNESCO, o moliceiro é Património da Humanidade faça a seguinte experiência: dê uma cabeçada na proa do moliceiro e veja se doeu ou a atravessou como se nada fosse. Se doeu, meus amigos, não é imaterial e se não é imaterial não é Património da Humanidade. Simples não é?
No Património Cultural Imaterial, segundo o Instituto do Património Cultural, inscrevem-se “expressões orais de transmissão cultural e das técnicas e saberes tradicionais, e da promoção do registo gráfico, sonoro e audiovisual do Património Cultural sem suporte material”, assim sendo jamais o Barco Moliceiro pode ser inscrito no Património Cultural Imaterial, mas a arte da carpintaria naval que o constrói, essa sim, e foi essa que foi inscrita na UNESCO. Aparecer na designação da candidatura “Barco Moliceiro” é como a cereja no cimo do bolo, pura decoração (aparentemente, mas fico por aqui porque em artigo anterior já disso falei).
O Barco Moliceiro poderia, quando muito, ser inscrito no Património Cultural Material Móvel,e era por aí que deveria ter sido conduzida uma candidatura, se houvesse interesse efectivo em que o Barco Moliceiro fosse Património da Humanidade.
Mas nem tudo são más notícias a “ Arte da Carpintaria Naval da Região de Aveiro” é Património da Humanidade, ficou definido o que é um Barco Moliceiro(os barcos que andam nos canais de Aveiro também o são), está preservada a tradição da construção. Haja quem tenha dinheiro para os mandar construir.
Resumindo e concluindo, para quem quiser mandar construir um moliceiro, e usando um ditado popular, “Tudo como dantes, quartel general em Abrantes”. Ou será que, face à aprovação, os Municípios da Beira-Ria vão conceder apoios directos e a fundo perdido, com condições claro, a quem quiser mandar construir um moliceiro? O custo de um Barco Moliceiro rondará de 20.000 euros, completamente aparelhado.
É esta a questão de fundo e da qual pode depender a sobrevivência do Barco Moliceiro, ou somente dos “turisteiros” – depois da candidatura aprovada são “Barcos Moliceiros adaptados para fins turísticos” – que circulam nos canais de Aveiro e geram fluxos financeiros consideráveis.
CIRA e Municípios da Beira-Ria a bola está do vosso lado e com ela o futuro do Barco Moliceiro.
artigo publicado no jornal “Notícias de Aveiro” de 23 de janeiro de 2026
https://www.noticiasdeaveiro.pt/o-moliceiro-e-patrimonio-de-quem-o-pagou/
(regata do s, paio; torreira; 2014)
https://www.noticiasdeaveiro.pt/o-moliceiro-e-patrimonio-de-quem-o-pagou/
quando há festa na aldeia
por vezes aparece um ser
andrajoso com folhas A quatro
que estende a quem passa
há dias lá estava de novo
cruzei-me com ele na rua
e como o meu amigo álvaro
tirei uma moeda do bolso
não das maiores e ofereci-lha
que não não queria dinheiro
estendeu-me uma folha
cheia de rostos e quadrados
indicou-me um deles e disse
quero uma cruz neste
tá bem tá disse-lhe eu
uma moeda ainda ia
agora quadrados e cruzes
só nas palavras cruzadas
ou no recato de uma cabine
por mera curiosidade perguntei-lhe
o que fazia e como se chamava
ao que me respondeu cabeça baixa
faço asneiras apelido esquerdatriste
(moliceiros; regata da ria; torreira; 2013)
hoje é dia de s. paio
os cisnes da ria poisam e voam
sobre a lisura das águas
livres de gabinetes e cálculos
de enganos elaborados
por mandantes e candidatos
é hora de vender gato por lebre
é tempo há muito tempo
de semear ilusões e colher pelouros
os moliceiros são o colorido da ria
onde negros corvos
fazem falsas promessas colhem votos
cargos futuros euros
os cisnes da ria livres e belos
nunca serão património nacional
sequer da humanidade nunca
os cisnes da ria são moliceiros inteiros
homens e barcos fundidos
na herança na tradição e no sonho
os cisnes da ria poisam e voam
sobre a lisura das águas
ignoram o cinismo são emblema
(regata de moliceiros; s. paio; torreira; 2017)