construção de um moliceiro (12)


26 de agosto

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em todos os processos há sempre alguém, por vezes muitos, cuja presença silenciosa e trabalho dedicado, torna a obra possível. ninguém fala deles, ninguém deles se lembra, mas sem eles não teria havido obra.

chama-se avelino, para que conste, mas poderia ter muitos nomes, tantos quantos os que não deixaram o nome ligado a qualquer obra.

pinta, serra, varre, ajuda em tudo e em tudo deixa um pouco de si. fala pouco, sorri por vezes, não pára quase nunca.

neste registo, está a pintar o leme que ajudou a fazer, deixando o círculo que o pintor preencherá com o símbolo do mestre construtor.

já pintou as falcas, irá dar bondex no interior do barco, fará o que o mestre lhe pedir. porque ambos se conhecem o suficiente para saberem até onde cada um pode ir.

o mestre zé rito continua a fazer peças de madeira, os pintores decoram bordaduras, painéis, dão ao moliceiro a vida que o torna mais belo ainda.

os que assistimos, e somos sempre muitos, fazemos o que podemos quando nos pedem ou sentimos que podemos ser úteis.

contam-se histórias de vidas e há em todos, excepto no mestre zé rito, um certo nervosismo quando se fala na data de conclusão da obra.

o mestre continua a sorrir, a trabalhar e, quarta-feira, o barco irá pela primeira vez beijar a ria. ele sabe-o e isso basta.

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(torreira; 26 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (11)


25 de agosto

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os trabalhos têm continuado a bom ritmo, apesar da chuva de ontem.

neste registo pode ver-se o mestre zé rito a cortar a última tábua do leme, o pintor josé oliveira – zé manel, na beira ria – a pintar a bordadura do painel da ré e o pai, necas lamarão, a pintar a antepara da proa e o vertente.

o interesse deste registo reside no facto de que todos eles estão de costas, sendo assim os intervenientes identificados nominalmente aqui, mas representando toda uma tradição de construção naval artesanal de moliceiros.

repare-se que no bordo de estibordo já estão colocados os pés das falcas, a que se seguirá a fixação das mesmas.

as falcas de estibordo estão quase prontas.

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(torreira; 25 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (10)


23 de agosto

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hoje o pintor josé oliveira continuou a decoração dos painéis, com a ajuda do pai -necas lamarão.

o pai ajuda, e bem, na pintura das bordaduras, ficando a decoração dos painéis a cargo do filho.

neste registo necas lamarão pinta as bordaduras do painel de estibordo da ré e josé oliveira, ao fundo, as do painel de estibordo da proa.

durante alguns dias não publicarei mais registos da construção, até que surja um momento de envolvimento colectivo.

não demorará muito………..

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(torreira; 23 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (6)


19 de agosto

hoje o mestre zé rito, andou entre o acabamento da proa e o leme e pequenas tarefas de aperfeiçoamento. do varrer ao polir, de tudo se fez um pouco e os amigos ajudavam onde era preciso a cada momento.

momentos houve, como todos os dias, em que o mestre trabalhava e conversava com os amigos, dizia piadas e continuava. a obra é um acto de contentamento e não o resultado de um sacrifício.

emigrantes, reformados, pescadores, turistas …. muitos foram os que por ali passaram, os que ali ficam e convivem.

dos muitos momentos vividos ao longo do dia, fica o registo último que fiz antes de os deixar: o colocar do último “cunho” do castelo da proa, depois do “bertente”.

como já escrevi, este não é um diário técnico, nem o pretende ser, é isso sim, uma memória dos dias vividos junto à ria à mesa de um moliceiro em construção.

como disse o setenove, em torno ” de mais um filho da ria”.

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o mestre zé rito coloca o último “cunho”

(torreira, 19 de agosto de 2016)

construção de um moliceiro (5)


18 de agosto

hoje o mestre zé rito continuou a trabalhar em pequenos, mas importantes detalhes da construção, nomeadamente a quase conclusão da bica da proa e ponteiras.

registei, pela sua valia humana de solidariedade e amor, o momento em que todos os que foram precisos ajudaram a colocar a tábua de baixo, do costado de bombordo.

tirando uma pequena lacuna na ré, o bombordo ficou fechado – até à hora em que saí do estaleiro.

talvez amanhã quando lá chegar já esteja fechado. quando saí ontem faltava colocar a tábua de baixo do costado de estibordo à ré, hoje de manhã já estava no sítio.

o barco vai-se fazendo de acordo com o saber do mestre, com os métodos herdados na sua aprendizagem e aperfeiçoados no seu fazer diário. de acordo com o seu tempo.

não sou técnico, sou o que olha e vê os homens e um barco que pulsa dentro deles e os faz rir e conviver, como se em torno de uma mesa farta.

o tempo aperta, o mestre não descansa, os amigos esperam, plateia atenta, que um pedido surja e logo é satisfeito.

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construção de um moliceiro (3)


16 de agosto

depois das tarefas que envolveram grande número de amigos, entramos na fase dos pormenores.

nos últimos dias o mestre zé rito tem vindo a trabalhar no afinamento de pequenos detalhes, colocação das ponteiras da bica da proa, pequenas peças na bica da ré, emassar e polir madeiras.

hoje ficou concluída a colocação do traste e ficará ainda colocada a peça que aqui registo: o vertente (bertente).

colocado do lado da proa da quinta caverna, começa nele o castelo da proa e nele termina o coberto do castelo da proa.

juntamente com o traste são peças de colocação transversal que dão rigidez à estrutura.

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os moliceiros têm vela (232)


regata do bico 2016

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” O Amador” a chegar ao cais do bico

participantes e posição à chegada:

classe A

1º – Zé Rito
2º – Marco Silva
3º – A. Rendeiro
4º – Dos Netos
5º – O Amador
6º – C.M. Murtosa

desistiram

S. Salvador
Manuel Silva
Bulhas

Classe B
(não entram para a competição)

Sermar
Ecomoliceiro

no final da regata foram entregues, pelos autarcas da murtosa, as medalhas de participação e as taças até ao 5º lugar.

foi anunciado de que havia prémio de participação e, como é hábito, deve haver também um de “posição à chegada”. os valores não foram divulgados, nem os moliceiros com quem falei o sabem.

alguma explicação há-de haver, e penso que de força maior, para que assim seja. eu só fui fotografar a regata.

aliás, havia muitas máquinas no cais do bico, vindas de muito longe, algumas até de lisboa. os moliceiros trazem às regatas um público muito especial: fotógrafos amadores.

espero que as organizações das regatas entendam, numa época em que se fala tanto de “turismo temático”, o potencial que eles representam.

só mais uma pequena nota, hoje no estaleiro do mestre zé rito, onde se está a construir o moliceiro do zé rebelo, um francês dizia-me:

– em frança só na bretanha se fazem barcos desta forma artesanal, mas não são para particulares, são para património.

mais uma para registo

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o mestre felisberto caçoilo chega ao bico à proa d’ “O Amador”

(cais do bico; 7 de agosto, 2016)

o moliceiro “O Amador”, do mestre felisberto caçoilo, a chegar para a regata ainda pela manhã.

são imagens como esta que me levam a estar cedo e a passar muitas horas no recinto.

os moliceiros têm vela (231)


do tamanho

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(relendo fernando pessoa
«Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura.»)

olho à minha volta e vejo
que nesta terra
os que nela mandam
não têm sequer
o tamanho da altura que têm

como poderão ver?

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(murtosa; regata do bico; 2013)