o poema da ria

avô e neto
o mestre zé rito
e o zé pedro
este é o poema da ria

(torreira; regata da ria; 2011)
o poema da ria

avô e neto
o mestre zé rito
e o zé pedro
este é o poema da ria

(torreira; regata da ria; 2011)
partir

sentir com os olhos
ser o olhar
nada mais que isso
depois
como sempre
partir
que futuro aqui?

(torreira; regata s. paio; 2014)
moliceiro

mais belo não há
que dentro dele vibra
um coração gentio
que mesmo de longe
enche as velas
só para ser de novo
assim o sentissem
os que cegos
nada mais vêem
senão tachos e euros

(torreira; regata da ria; 2010)

recachia

torreira; regata da ria; 2011
ti manel vareiro

enquanto não começa a regata, e para chegar ao local de partida, os moliceiros usam um pequeno motor lateral
de seu nome, manuel valente, todos o conhecem nas regatas por “ti manel vareiro”, porque de ovar.
é o único moliceiro apoiado por uma autarquia, com um subsídio anual. a junta de freguesia de s. joão de ovar, dá-lhe o subsídio a troco de um, ou dois, passeios anuais.
em ovar, no extremo norte da ria, sequer o coração da ria, muito menos a pátria do moliceiro, uma freguesia, sequer uma câmara, menos ainda uma região de turismo, e aí temos uma junta de freguesia que entende a valia do moliceiro.
fica aqui este registo para quem não sabia. mas é verdade, s. joão de ovar, não é freguesia da murtosa, nem munícipio. apenas uma freguesia. mas, atrever-me-ia a dizer a única freguesia que entende o valor do moliceiro.
se alguém se sentir melindrado com esta informação dada publicamente, tem bom remédio: faça o mesmo

chama-se “pequenito” mas é um exemplo para os maiorais da ria
(torreira; regata da ria; 2011)

quando não há vento in”venta”-se
sabíamos que os moliceiros podiam andar:
– à vela
– vara
– à sirga
mas “a vertedouro” só um mestre construtor e velejador, como o mestre felisberto caçoilo, podia inventar

ser moliceiro é isto: rein”ventar”
(murtosa; regata do bico; 2010)

andam cisnes na ria
sou-me estranho
não me sei
despido do outro

como são diferentes estes dias
(murtosa; regata do bico; 2009)
na vela o vento

com duas velas
ser ainda árvore
depois da tempestade
deixar que o vento siga
a sua eterna viagem
fundas as raízes na terra
escrevem o teu nome
sorris sem saber como
nem para quem
mais forte o sorriso
que o vento
na vela

que beleza é esta?
(torreira; regata da ria; 2011)
dos conhecidos

chamam-lhe recachia
há os do não
há os do sim
há os do talvez
teme os últimos

há recachia na ria
(torreira; regata da ria; 2010)
a história não é estória

longe e perto
tenho o tamanho
que tenho
nem mais nem menos
saber o meu tamanho
é saber de mim
é essa a minha grandeza
não te temo por maior
que grande é o vendaval
e passa e morre e foi
digo-te que se quiser
terei o tamanho do tamanho
que tu tens e isso
faz de ti
alguém do meu tamanho
e de mim
um outro muito maior que tu
é com essa ilusão
de falsa grandeza
que do nosso prato
comes sentado à mesa
eu sei que vamos crescer
e papas na tua cabeça
comeremos mais uma vez
a história não é estória

é na meta que se vê o tamanho
(torreira; regata do s. paio; 2014)