hoje sou outro

o cambar
de tão óbvio
desnecessário seria
ter de o escrever
quem ontem fui
por ter sido
deixou de o ser
hoje sou outro

a beleza das velas
(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2014)
hoje sou outro

o cambar
de tão óbvio
desnecessário seria
ter de o escrever
quem ontem fui
por ter sido
deixou de o ser
hoje sou outro

a beleza das velas
(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2014)
tecnologia à moda do porto

bai-te
que eu já
te bi-te

(torreira; regata da ria; 2013)
hoje sou palavras

escrevo amigos
e a palavra
tem gente dentro
gente que não conheço
me abraça e abraço
com palavras
dizê-los escrevendo-me
sentirem-se ao ler-me
é sonhar ser mais
hoje sou palavras

(torreira; regata do s. paio; 2014)
hoje quero ser vela

a ilusão é estarem juntos
porque deviam
a realidade é a ilusão
ser só isso
contenta-te com o que vês
e sê feliz
se as velas fossem asas
haveria quem as quisesse
roubar
mas são apenas asas
não servem para voar
hoje quero ser vela

(torreira; regata da ria: 2010)
espero

espero
as palavras sensatas
a resposta
cordata e pensada
reconhecidos
o erro a falta
espero
a justa paga porque
prometida
e como tal devida
a quem por ela fez
mais do que
quem dela sem saber fala
espero
mais que tudo
e como sempre
que os homens sejam
a palavra dada
convertida
no pagamento devido
só isso
sou as águas calmas
da ria
mas também as vagas
quase de mar
quando do norte
o vento forte
em rajadas
espero
mas não muito

(torreira; regata do s. paio; 2012)
assim sejam

Foram os escolhidos
Almoçaram os mortos
Mais lembrados
Iludiram-se as ausências
Lavaram-se mãos e olhos
Irmãos pais primos tios
Assim se quiseram
assim sejam

(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio; 2014)
“CORREIO
Chegam cartas, chegam pedaços
do meu país
Chegam vozes. Chega um silêncio que me diz
as revoltas as lágrimas os cansaços.
Chegam palavras que me apertam nos seus braços.
………..
Manuel Alegre

dou-vos a minha palavra
desabitado espaço este
o de haver palavra dada
e ser cumprida
sei que sou português aqui
josé fanha
e o sabê-lo faz de mim mais
do que o que sou
sou os portugueses que de mim
precisam e em mim confiam
sou a minha palavra
a dada aos que o meu respeito
merecem por serem
como muito poucos
portugueses aqui também
para o serem ainda mais além
do que nesta parca geografia
que os sufoca
cresci com homens bons
gente da terra porque a terra neles
não será agora que negarei
a herança
dou-vos a minha palavra

(cais do bico; murtosa)

PAGUEM O QUE DEVEM AOS MOLICEIROS
enviem esta mensagem para:
geral@regiaodeaveiro.pt
que é o mail da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro – Baixo Vouga (CIRA), organizadora da regata da ria 2015.
não basta gostar dos moliceiros é preciso lutar por eles e com eles
geral@regiaodeaveiro.pt – PAGUEM O QUE DEVEM AOS MOLICEIROS

(torreira; regata da ria; 2013)
paguem aos moliceiros

no tempo em que os animais
falavam
os burros andavam de orelhas
murchas
agora que os homens falam
não há quem ature os burros
paguem aos moliceiros

(torreira; regata do s. paio; 2014)
abril vinte e quatro

abril vinte e quatro
mil nove setenta e quatro
não sabíamos de amanhã
do amanhã que hoje
sabemos que ia ser
recordo os mortos nas
guerras criminosas no
silêncio das prisões às
mãos sádicas de não homens
que vimos condecorados
para nossa vergonha
depois de
abril vinte e cinco
quarenta e dois anos depois
é amanhã e podemos sair
à rua e por sermos mais de dois
não seremos presos

(torreira; regata do s. paio; 2012)