penso

o espectáculo do moliceiro
penso que penso
assusto-me
só de o pensar

como se amor com a ria fizesse
(torreira; regata do s. paio; 2012)
penso

o espectáculo do moliceiro
penso que penso
assusto-me
só de o pensar

como se amor com a ria fizesse
(torreira; regata do s. paio; 2012)
cabrita alta

joão manuel dias
escrevo sete metros
nunca menos
mais de dez quilos
lançar arrastar puxar
lama cascas ameijoa
quantos quilos mais?
os músculos retesados
joelhos fincados
na borda na bateira
esmagam rótulas
tenso o dorso
o esgar na boca
nos olhos no rosto
os dentes cerrados
o esforço verga o corpo
desgasta-o deforma-o
o homem não é de ferro
a cabrita sim tem dentes
ferrados na lama na carne
rasga músculos fere
escrevo sete metros
nunca menos
mais de dez quilos
quero que os sintas
ao leres

no fundo da ria e cabrita arrasta
(torreira; cabrita alta; 2012)
tudo são aparências

o zé e o seu moliceirinho
é nos dias de calmaria
que nasce a tempestade
tudo são aparências

de chapéu verde, o s. paio do zé rebelo
(torreira; regata do s. paio; 2014)
o zé rebelo prepara o seu moliceirinho para a regata
ser ainda

colhe a rede onde eu colho a luz
escutar a luz
perder-me de mim
reencontrar-me
ser ainda

no silêncio da ria o joão magins colhe a rede e, com sorte, alguns chocos ou linguados
(ria de aveiro; torreira)
eternidade breve

chama-se marta
nasceu no dia 20 de março
às 23 h 30 minutos
pesava 3,655 quilos
media 50,5 cm
isto não é um poema
é o meu sangue
noutro sangue
noutro corpo
inescrevível ser
é o tempo depois
de o meu tempo se acabar
a terceira neta
a terceira menina
e todas todas
são a primeira
são a minha
eternidade breve

(torreira; regata do s. paio; 2014)
raiva de não ser faca

regresso ao essencial
à dureza da rocha
ao sal colado ao corpo
ao povoamento da ria
terra de pão incerto
mãe do sorriso sofrido
o esqueleto exposto
à rudez da vida
sem molduras coloridas
raiva de não ser faca
(torreira; cabrita baixa; 2012)
quando “japónica” abundou na ria e matou a fome a muita gente
o poema da ria

avô e neto
o mestre zé rito
e o zé pedro
este é o poema da ria

(torreira; regata da ria; 2011)
o drama

ínfimos somos
o tempo não existe
tu sim
a distância não existe
tu sim
esse o drama

tão pouco somos
(torreira; porto de abrigo)
partir

sentir com os olhos
ser o olhar
nada mais que isso
depois
como sempre
partir
que futuro aqui?

(torreira; regata s. paio; 2014)
joão manuel brandão (3)

sofridas letras
esculpidas na carne
escritas no rosto
saber os caminhos
do suor ao oiro
da dor à fortuna
é uma outra ria
onde é sempre
maré vazia
cheia de lamas
apodrecidas
depositadas
nas margens
este é o postal
que não encontrarás
no sítio habitual

(torreira; cabrita alta; 2012)