postais da ria (148)


cabrita alta

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joão manuel dias

escrevo sete metros
nunca menos
mais de dez quilos
lançar arrastar puxar
lama cascas ameijoa
quantos quilos mais?

os músculos retesados
joelhos fincados
na borda na bateira
esmagam rótulas

tenso o dorso
o esgar na boca
nos olhos no rosto
os dentes cerrados

o esforço verga o corpo
desgasta-o deforma-o
o homem não é de ferro
a cabrita sim tem dentes
ferrados na lama na carne
rasga músculos fere

escrevo sete metros
nunca menos
mais de dez quilos

quero que os sintas
ao leres

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no fundo da ria e cabrita arrasta

(torreira; cabrita alta; 2012)

os moliceiros têm vela (197)


tudo são aparências

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o zé e o seu moliceirinho

é nos dias de calmaria
que nasce a tempestade

tudo são aparências

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de chapéu verde, o s. paio do zé rebelo

(torreira; regata do s. paio; 2014)

o zé rebelo prepara o seu moliceirinho para a regata

os moliceiros têm vela (196)


eternidade breve

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chama-se marta
nasceu no dia 20 de março
às 23 h 30 minutos

pesava  3,655 quilos
media 50,5 cm

isto não é um poema
é o meu sangue
noutro sangue
noutro corpo
inescrevível ser

é o tempo depois
de o meu tempo se acabar

a terceira neta
a terceira menina
e todas todas
são a primeira

são a minha
eternidade breve

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(torreira; regata do s. paio; 2014)

postais da ria (144)


raiva de não ser faca

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regresso ao essencial
à dureza da rocha
ao sal colado ao corpo

ao povoamento da ria
terra de pão incerto
mãe do sorriso sofrido

o esqueleto exposto
à rudez da vida
sem molduras coloridas

raiva de não ser faca

(torreira; cabrita baixa; 2012)

quando “japónica” abundou na ria e matou a fome a muita gente

postais da ria (145)


joão manuel brandão (3)

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sofridas letras
esculpidas na carne
escritas no rosto

saber os caminhos
do suor ao oiro
da dor à fortuna

é uma outra ria
onde é sempre
maré vazia
cheia de lamas
apodrecidas
depositadas
nas margens

este é o postal
que não encontrarás
no sítio habitual

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(torreira; cabrita alta; 2012)