
não me
perguntes porque voam os pássaros
não sei
só me lembro de abrir as asas

(murtosa; regata do bico; 2010)

não me
perguntes porque voam os pássaros
não sei
só me lembro de abrir as asas

(murtosa; regata do bico; 2010)
joão manuel brandão (2)

o rosto
a arte
a ria
o pão
sofrido

(torreira; cabrita ata;2012)
moliceiro

mais belo não há
que dentro dele vibra
um coração gentio
que mesmo de longe
enche as velas
só para ser de novo
assim o sentissem
os que cegos
nada mais vêem
senão tachos e euros

(torreira; regata da ria; 2010)
joão manuel brandão (1)

das muitas artes de pesca que ainda se praticam na ria e que pude acompanhar de perto, a arte da “cabrita alta”, para apanhar bivalves é, sem dúvida, a mais dura.
com o joão manuel brandão e o joão manuel dias, em 2012, pude ver de perto o sofrimento que provoca no mariscador.
as fotos que vou publicar são do joão manuel brandão e mostram bem o esforço que se lhe espelha no rosto.
coluna, joelhos, braços, pernas, todo o corpo é uma máquina que se desgasta nesta arte duríssima e que, mais dia menos dia, os leva ao bloco operatório ou à fisioterapia.
parca paga, enorme o desgaste, maior a despesa.

(ria de aveiro; torreira; cabrita alta; 2012)

o momento é agora
vive-o

(torreira; regata do s. paio; 2015)

recachia

torreira; regata da ria; 2011
revisito-me

corre a rede por entre os dedos
correm lestos os dias
por entre os dedos
aragem breve subtil
súbito
temporal
de tantos havidos
fui neles o mais
que soube
assisto-me sem
críticas de
revisito-me

com o salvador belo, no meio da ria
(ria de aveiro; torreira; largar da solheira)
ti manel vareiro

enquanto não começa a regata, e para chegar ao local de partida, os moliceiros usam um pequeno motor lateral
de seu nome, manuel valente, todos o conhecem nas regatas por “ti manel vareiro”, porque de ovar.
é o único moliceiro apoiado por uma autarquia, com um subsídio anual. a junta de freguesia de s. joão de ovar, dá-lhe o subsídio a troco de um, ou dois, passeios anuais.
em ovar, no extremo norte da ria, sequer o coração da ria, muito menos a pátria do moliceiro, uma freguesia, sequer uma câmara, menos ainda uma região de turismo, e aí temos uma junta de freguesia que entende a valia do moliceiro.
fica aqui este registo para quem não sabia. mas é verdade, s. joão de ovar, não é freguesia da murtosa, nem munícipio. apenas uma freguesia. mas, atrever-me-ia a dizer a única freguesia que entende o valor do moliceiro.
se alguém se sentir melindrado com esta informação dada publicamente, tem bom remédio: faça o mesmo

chama-se “pequenito” mas é um exemplo para os maiorais da ria
(torreira; regata da ria; 2011)
assim o vento

marginal aqui, incomodo
sou o que o vento
levará ao mar
depois de tanta terra
o meu tempo é
não foi nem será
é
e serei nele
os que comigo
chego súbito
como quem parte
sem despedida
assim o vento

a bandeira da diferença
(torreira; regata das bateiras à vela; s. paio, 2014)

por onde andam que os não vejo?
escuto-me mais além
não oiço nada
parti-me sem saber

o tempo esse traidor
torreira; regata do s. paio; 2012)