a beleza do sal (17)


as minhas raízes

0 ahcravo_DSC_3802 licínio

o licínio a mexer

as minhas raízes
são os meus princípios
em qualquer geografia

o valor da palavra
raiz aprumada que me alimenta

a noção de justiça
a minha voz o meu gesto

a solidariedade
o meu estar aqui

as minhas raízes
herdei-as e fi-las
por vezes doem-me

(armazéns de lavos; mexer; 2017)

a beleza do sal (16)


é verão

0 ahcravo_DSC_3781 buíça

buíça, marnoto, 81 anos de idade

salgados são os dias
cansado o corpo
vergado ao peso do sol
à pureza do sal

é verão
pelas praias a banhos
muitos são

salgados vão os dias
salgado é o pão

o sol que te queima
o mar em que te banhas
à tua mesa sal serão

salgados são os dias
salgado é o pão

é verão
às praias a banhos
nem todos vão

(armazéns de lavos; salina do buíça; mexer)

a beleza do sal (14)


 

0 ahcravo_DSC_2113

enfeitar

sim
salgaram tudo
terra casa afectos
a memória

não
com o ancestral intento
de preservar deixar para
não

sabia
demasiado sal
queima mata esteriliza
sabiam-no e deixaram

então digo
não há beleza no sal
nem nunca haverá
nos assassinos

a desconstrução da beleza
é criminosa

(morraceira; 2016)

a beleza do sal (12)


só há uma partida

0-ahcravo_dsc_1724

enfeitar

só há uma partida
a definitiva
o mais são abandonos
por raiva desilusão
amar demais para

amanhã vou para o sul
voltarei breve
enquanto regresso
possível for

deixo-vos com o sal
e o corpo de uma mulher
lugar onde terra e mar
se unem para dar
sabor à vida

(morraceira 2016)