postais da ria (208)


o grito por dentro

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como se nada
ninguém

o olhar embebeda-se
de tanto

homem e mulher
camaradas

homem e mulher
um barco
uma arte
a vida da ria

homem e mulher
quantas vezes
tão pouco
para tanto

o silêncio
é um barco sem gente

oiço o grito
mais ninguém?

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(torreira; o alar da solheira)

solheira: alar e safar


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a safar caranguejo, vejam-se as mãos comidas de sal

actualmente na torreira a pesca aos chocos e aos linguados faz-se utilizando a arte “solheira”, cuja estrutura se encontra legislada nos seguintes termos:

“descrição- rede de emalhar de três panos (tresmalho) fundeada

características:

– comprimento máximo da rede 500m
– altura máxima da rede – 60cm
– malhagem mínima do pano central – 100mm” (já reduzida para 80mm)

o nome da arte advém do facto de ter servido em tempos para a pesca da solha, peixe muito abundante na ria e que com o desaparecimento do moliço, se tornou espécie rara.

na torreira à totalidade da rede chama-se “andar” e às porções de que se compõe “rede”.

cada “rede”, ou “ração”, ou “caçada”, custa 67 euros, sendo necessária para construir um “andar”, pelo menos 16 redes, ou seja, um “andar” custa 1.072 euros.

para trabalhar é necessária uma bateira, com a seguinte estrutura:

– 12 cavernas
– 7,5 m de comprimento
– 1,80m de boca
– 45cm de pontal

a bateira custa cerca de 3.000 euros e é accionada por um motor de 8 cv, no valor de cerca de 2.500 euros.

ao conjunto de apetrechos com que uma bateira deve ser dotada para passar na vistoria, chama-se “parlamenta” e custa cerca de 500 euros.

anualmente é necessário proceder a uma vistoria, que custa cerca de 80 euros, para efeitos de renovação de licença, a qual só é renovada se o pescador tiver declarado o mínimo de 5.000 euros de pescado na lota.

ou seja, e para concluir, somando as parcelas, os custos fixos para o exercício da arte, orçam em 7.150 euros .”

durante o ano de 2010 fui várias vezes ao rio largar e alar redes com pescadores da torreira, de alguma idas ficaram registos fotográficos, doutras vídeos. não houve um pescador a quem tenha pedido para ir com ele, que me desse uma nega, por isso é a todos os pescadores da torreira que dedico estes registos.

os momentos mais dolorosos e custosos são o alar e o safar das redes, é desses momentos que tratam os vídeos que aqui mostro.

as redes são largadas no fim da enchente e aladas, em princípio, no início da vazante. a bateira fica “atravessada” e, para não ser arrastada pela maré, é lançado à ria, do lado de “cima”, um peso ao qual fica amarrada.

o esforço da alagem é notório nos registos.

em média as redes ficam cerca de uma hora na ria. podem ficar mais, depende do pescador, do local onde largar, se há muitas algas na ria ou o sítio é rico em peixe (por costume) mas também em caranguejo.

por vezes uma hora na água, dá várias a safar. se for caranguejo então são as ferradelas, os rasganços nas redes e trabalho dobrado.

não é invulgar uma hora na ria, uma tarde a safar

(nota : procurei nalguns destes registos não fazer corte de tempos que “parecem” mortos. fica à responsabilidade de quem o vir, segundo a sua sensibilidade e ligação à ria, fazer os cortes que achar por bem – acelerando, por exemplo, durante alguns momentos a passagem do vídeo e voltando ao normal quando o entender.

que corte quem vê e não quem faz é o meu critério neste tipo de registos.)

(torreira; 2010)

a arte solheira do largar ao alar


o alberto trabalhito (trovão) e o necas

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a solheira é uma rede de emalhar de 3 panos justapostos – 2 albitanas e um miúdo – ou rede de tresmalho.

o aparelho da solheira é constituído por um determinado número de redes – andares/rações. as malhagens e comprimento total estão definidas no “Regulamento por arte de emalhar”.

de oito em oito andares é lançada uma bóia para marcar a posição e servir assim de referência a outras bateiras ao mesmo tempo que nos dá o alinhamento coma bóia inicial.

os andares têm a correr no cimo um tralho de bóias e no fundo um tralho de chumbo – este de acordo com os modelos mais modernos é constituído por uma corda por dentro da qual corre o próprio chumbo.

assim a rede assenta no fundo e nela emalham os peixes – chocos, linguados e, por vezes sarguetas – dos quais os dois primeiros são os verdadeiros objectos de captura

este vídeo, dos primeiro que fiz, data do de 2010, contou a colaboração do meu amigo alberto trabalhito (trovão) e o necas (já falecido) para um lanço breve e perto do porto de abrigo.

por estranho que pareça queria dedicar este vídeo aos pescadores da torreira e ao necas que , mais que um cão, era um amigo de trovão e da linda.

além de guardar as redes e o barco ainda ia chamar um dos donos quando era preciso, quantas vezes o trovão dizia ao neca “vai chamar a linda” e o mesmo para a linda “vai chamar o trovão” …. e o necas lá ia.

se no filme o ouvimos ladrar é porque vão a passar outros barcos e ele como bom cão de guarda vai avisando que ali é a casa dos donos.

obrigado trovão por me teres levado contigo, obrigado alfredo miranda pela documentação sobre as artes de pesca.

espero ainda publicar mais alguns vídeos só sobre a alagem, com outros pescadores noutras bateiras.

quero que vivam a ria com os sons dela e as gentes que dela tiram sustento

(torreira; 2010)