as quotas

a ti maria safa as redes da solheira
na ria não se discute
a participação das mulheres
nem há tempo para isso

(#torreira; 2016)
as quotas

a ti maria safa as redes da solheira
na ria não se discute
a participação das mulheres
nem há tempo para isso

(#torreira; 2016)
decisão

o que vêem os olhos de um pescador
disseram-lhe
corta o mal pela raiz
não hesitou
logo ali cortou os pés

por onde andará o peixe?
(torreira; 2012)
com o meu amigo salvador belo, de partida para largar a solheira
os meu amigos da ria

o meu amigo joão magina
os chocos não conhecem
esta bateira
dizia o joão hoje à tarde
a ria anda assim
o berbigão e ameijoa
onde estão?
o choco não entra
ao norte do porto de abrigo
quantas redes?
até quando a ria?

a safar as redes da solheira
(torreira; 15 junho, 2016)
a magia da ria

há imagens que nos pregam
ao chão
que nos prendem os olhos
as cores as gentes o céu
o estar ali
deslumbrado com tanto
a ria por vezes é pura magia
como senti no momento em que
não fui capaz de para de disparar
enquanto que pensava
por mais que faça
nunca nada será mais belo
que o estar aqui
assim sintas a ria um dia

o henrique e o padas safam as redes da solheira, o léo, na bateira do pai assiste
(torreira; o safar das redes)
ser quase nada

a ria por destino
ser o que passa sabendo
que ao passar
deixa o ter sido nada mais
escrever-me aqui
onde nem papel
é ser quase nada
onde por ilusão
tantos
julgam ser
quase tudo

henrique brandão e o filho, henrique também, arrumam as redes da solheira
(torreira; marina dos pescadores)
ser ainda

colhe a rede onde eu colho a luz
escutar a luz
perder-me de mim
reencontrar-me
ser ainda

no silêncio da ria o joão magins colhe a rede e, com sorte, alguns chocos ou linguados
(ria de aveiro; torreira)
revisito-me

corre a rede por entre os dedos
correm lestos os dias
por entre os dedos
aragem breve subtil
súbito
temporal
de tantos havidos
fui neles o mais
que soube
assisto-me sem
críticas de
revisito-me

com o salvador belo, no meio da ria
(ria de aveiro; torreira; largar da solheira)
pão parco

safar as redes da solheira para a plataforma
no longe quem sabe
o futuro
um barco meses no alto
um salário nos dedos
rasgados pelo gelo
redes cordas espinhas
sonhar amanhã
um destino diverso deste
estagnado na beleza inútil
de onde um pão parco

fosse o peixe limo e boa a pescaria
(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)
márcia evaristo (arrais da ria)

tem carta de arrais e é camarada do tio quim nas artes da ria.
neste registo está a safar as redes, enquanto no rosto exibe ainda a maquilhagem que os chocos deixam nos rostos de quem os apanha.
são assim as pescadoras da ria

(ria de aveiro; torreira; 2011)
não merecem

a alar a solheira
fizeram-se homens
ainda crianças
na escola dos barcos
fazem de cabeça
as contas
das malhas das redes
nunca têm nos bolsos
quanto baste
para poderem dizer
vou de férias
partem para longe
vão de viagem
em busca do pão
que a ria nega
o comprador não dá
sei deles o suficiente
para vos dizer
não merecem

não ser de oiro a pescaria
(torreira)