postais da ria (131)


não merecem

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a alar a solheira

fizeram-se homens
ainda crianças
na escola dos barcos

fazem de cabeça
as contas
das malhas das redes

nunca têm nos bolsos
quanto baste
para poderem dizer

vou de férias

partem para longe
vão de viagem
em busca do pão
que a ria nega
o comprador não dá

sei deles o suficiente
para vos dizer

não merecem

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não ser de oiro a pescaria

(torreira)

postais da ria (128)


cheio só de mim

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um a um os “andares” vão entrando na bateira

braço a braço
os dias
por entre os dedos
foram

olhos por dentro
dos olhos
estas memórias

queria a rede cheia
que de sonhos fora
para um dia te legar

mas nem isso

vou-me como vim
nu de tudo
cheio só de mim

ahcravo_DSC_3476_solheira_alar com o salvador chalana

nem sempre a rede salva o salvador, é assim a vida de pescador

(torreira; alar da solheira; 2010)

postais da ria (127)


regressarão

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depois do alar da solheira regressa-se, no balde o pescado (2010)

come-se à mesa
o que da ria
horas porfiadas
marés redes

conta-se o tempo
o ganho parco
no fundo do balde

parte-se porque
é fraco o ganho
para tanto
para tão pouco

vão-se os homens
e são senhores do mar
escravos da ria
terra sua de ser água

até quando pergunto
e só o silêncio
onde vozes por vezes
jamais o gesto

regressarão

ahcravo_DSC_3502_solheira_alar com o salvador chalana

a olhar o balde, o salvador faz as contas, e é tão pouco (2010)

(torreira; solheira; 2010)

o meu amigo rui


ao pescador da torreira

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reparar as redes da solheira

far-te-ás no tempo
desfazendo o que de ti
fizeram
afirmar-te-ás negando
que todo o fim
é negação de início

seres tu é tarefa
em que não podes estar só
a companhia surgirá quando
de velhas companhias livre fores

és mestre do incerto
senhor do saber esperar
por isso te digo

não
não tens o que mereces
nem ninguém te oferecerá
o teu futuro

ahcravo_DSC_8777_rui

as horas que fazem o dia são poucas

(torreira, porto de abrigo dos pescadores)

o necas


(torreira; 2010)

responde pelo nome de necas, é o cão do alberto trabalhito (trovão).

cão de pesca, cão de pescador, acompanha o dono em todas as suas saídas para ganhar na ria o pão, nem sempre o melhor.

é um animal compenetrado nas suas funções e segue com atenção, quase como se fiscalizando e controlando, todas as acções dos donos.

neste registo íamos largar redes solheiras.

safar as redes, safar a vida (I)


 

salvador rilho (chalana)

o primeiro safar das redes começa no alar.

então se safam os peixes – chocos, linguados… – e se safam caranguejos, alforrecas e as algas maiores.

metro a metro, rede a rede, andar a andar, a rede vai-se acumulando junto à ré, entre o meio do barco e os pés do pescador.

sente-se que a beirada se aproxima da ria e o barco se torna mas pesado à medida que se ala.

depois, regressa-se à marina dos pescadores e outros dançares a rede fará.

na metade traseira do barco o seu primeiro passo

(torreira; 2010)

o safar das redes na arte solheira (I)


a dança do safar

na arte da solheira o safar é sem dúvida a tarefa mais trabalhosa.

durante alguns registos iremos acompanhar o bailar das redes e como, quando e onde pode ser feito o safar das redes.

olhar é o princípio da descoberta das coisas e do estudo dos processos em que se inserem

(cais do bico; murtosa; 2010)

as redes da solheira


 

 

salvador belo

 

admiro sempre
as mãos
a forma minuciosa
e terna
como tratam as coisas
mãos de trabalho
mãos de artista
mãos pacientes

com agulha
cosem as malhas
unem os fios
atam nós
fecham caminhos
abrem o haver
peixe afogado
dentro de água

meticulosamente
sem tempo de tempo de tempo
caminham percursos velhos
saberes antigos
as mãos
dos pescadores

(torreira – salvador belo)