da insónia

raiva de não escrever
de olhos fechados
as palavras que me assaltam
noite dentro e fogem
sem deixar mais
que a lembrança
de terem sido
tudo parecia tão claro

(torreira; o alar da solheira)
da insónia

raiva de não escrever
de olhos fechados
as palavras que me assaltam
noite dentro e fogem
sem deixar mais
que a lembrança
de terem sido
tudo parecia tão claro

(torreira; o alar da solheira)
ao pescador da torreira

reparar as redes da solheira
far-te-ás no tempo
desfazendo o que de ti
fizeram
afirmar-te-ás negando
que todo o fim
é negação de início
seres tu é tarefa
em que não podes estar só
a companhia surgirá quando
de velhas companhias livre fores
és mestre do incerto
senhor do saber esperar
por isso te digo
não
não tens o que mereces
nem ninguém te oferecerá
o teu futuro

as horas que fazem o dia são poucas
(torreira, porto de abrigo dos pescadores)
(torreira; 2010)
responde pelo nome de necas, é o cão do alberto trabalhito (trovão).
cão de pesca, cão de pescador, acompanha o dono em todas as suas saídas para ganhar na ria o pão, nem sempre o melhor.
é um animal compenetrado nas suas funções e segue com atenção, quase como se fiscalizando e controlando, todas as acções dos donos.
neste registo íamos largar redes solheiras.
o primeiro safar das redes começa no alar.
então se safam os peixes – chocos, linguados… – e se safam caranguejos, alforrecas e as algas maiores.
metro a metro, rede a rede, andar a andar, a rede vai-se acumulando junto à ré, entre o meio do barco e os pés do pescador.
sente-se que a beirada se aproxima da ria e o barco se torna mas pesado à medida que se ala.
depois, regressa-se à marina dos pescadores e outros dançares a rede fará.
na metade traseira do barco o seu primeiro passo
(torreira; 2010)
na arte da solheira o safar é sem dúvida a tarefa mais trabalhosa.
durante alguns registos iremos acompanhar o bailar das redes e como, quando e onde pode ser feito o safar das redes.
olhar é o princípio da descoberta das coisas e do estudo dos processos em que se inserem
(cais do bico; murtosa; 2010)
admiro sempre
as mãos
a forma minuciosa
e terna
como tratam as coisas
mãos de trabalho
mãos de artista
mãos pacientes
com agulha
cosem as malhas
unem os fios
atam nós
fecham caminhos
abrem o haver
peixe afogado
dentro de água
meticulosamente
sem tempo de tempo de tempo
caminham percursos velhos
saberes antigos
as mãos
dos pescadores
(torreira – salvador belo)